Portuguese poem
Aos Astros!
by Manuel de Arriaga (1840–1917)
Quando ergo á noite os olhos scismadores Á cupula do ceu, cheia de mundos, E perco-me nos páramos profundos D'um mar sem fim de tremulos fulgores:
O ceu, qual templo levantado á Vida, Armado de riquissimo thesouro, De par em par descerra as portas d'ouro, E attrae a si minha alma embevecida!...
Chovem-me então das cellicas alturas, Das luminosas, candidas estrellas, Visões sublimes, ideaes e bellas Da Causa que deu o ser ás creaturas!...
Amor as fez, Amor no espaço as guia!... E é sob o influxo d'esta Lei Suprema, Que cada qual realisa o seu problema, Preso ao das mais em intima harmonia!...
Sim, cada estrella, vêmol'o sem custo, Sendo dos ceus bellissimo ornamento, É um centro de vida e movimento Posto ao serviço d'um principio justo!...
Por todo o ethereo azul da immensidade, Dos soes sem fim a fulgida colmeia, Trabalha em traduzir, na humana ideia, De Deus a perfeição, toda bondade!...
Oh cupula celeste, no teu seio Aprendo a ler em paginas de fogo O espirito das coisas que interrogo Por toda a parte, e em cuja essencia creio!...
Tu, co'o teu docel azul sem fundo, Cheio de fogos d'alma claridade, Em multipla e febril actividade; Sorris-me como a fabrica do mundo;
O vasto pavilhão onde é servida Em mesas d'ouro, festivaes e bellas, N'esses milhões de esplendidas estrellas, A eterna comunhão dos Bens da Vida!...
Permitte, pois, que em sã fraternidade, Reunindo os habitantes d'esta esphera Aos que ha em ti, minha alma, sã e austera, Saúde a mãe commum==a Humanidade==;
E adore, á luz dos fachos sempre novos, Do teu santuario, o espirito fecundo De Deus, Supremo Bem, que ampara o mundo, Inspira as almas e dirige os Povos!...
E emquanto a vida vae em seu caminho, Por entre o dia claro e a noite escura, Conserva intacta esta alma crente e pura, Porque possa voltar ao patrio ninho!...
Á luz da minha critica profana, A Lei Suprema, que de Deus deriva, Eleva aos soes, em marcha progressiva, De virtude em virtude a alma humana!...
Se duvidas tivesse, a fé e a esperança Levavam em contrario a vida minha, E a bussola, que ignora onde caminha, Segue o seu norte e d'elle emfim descança!...
Astros sem fim, oh soes que estaes por cima, Longe da Terra, em região mais pura! Deixae que o corpo desça á sepultura E a vós se eleve o espirito que o anima!
O irmão da Luz, o amante da Verdade, Hade ir, deixando o envolucro que veste Como hospede da abbobada celeste, Internar-se feliz na immensidade!...
Astros! egual é a lei que nos governa! Na Terra, o nosso espirito fecundo Penetra nos reconditos do mundo, E vive como vós a Vida Eterna!
Beselga, 1872.