Versos Portuguese Manuel de Arriaga Aos Filhos

Portuguese poem

Aos Filhos

by (1840–1917)

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Trazidos pelo Amor, que por instantes, O veu ergue á Verdade, Por nós á luz vieram, quaes prestantes Peões da Humanidade!...

Amor é quem dos ceus nos abre a porta, Nos deixa vêr o intuito De Deus na Terra, e a elle nos transporta Da amante o olhar fortuito!

Em nós n'um sonho lindo tendo origem, Se o sonho a Deus encerra, As sabias leis da historia humana exigem, Que o sonho desça á Terra!...

Dos paes vingasse o amor, que este o faria Entrar na realidade, Expondo a divinal sabedoria Em plena claridade!...

Com legitimo orgulho o sol dar-lhe-ia Seus raios sempre novos; E a Terra os bens innumeros que cria Em paz, a bem dos Povos!

Em vez de irmãos maleficos eivados De odios que o sangue atiça, Os bons e os maus ver-se-iam congraçados Em nome de Justiça!

Em frente das pacificas moradas, Jasmins, lyrios e rosas!... E as ruas que pisamos marchetadas De pedras preciosas!

Tal o sonho que passa pela mente D'um pae creando os filhos, E n'essa fé remove deligente Milhares d'empecilhos!...

Mas fal'o em vão, que o mundo, sob um pacto Cruel co'o odio eterno, Lhe põe em derredor, injusto e ingrato, Em vez do ceu, o inferno!...

Ás vezes chega a ter-se horror ao homem, Ás suas impias luctas, Ao termos de entregar o peito joven D'um filho ás feras brutas!...

Antithese do Bem em que inda espera, Pergunta dolorido Um pae a Deus: se accaso lhe valera Seu filho ter nascido!...

Emfim é lei, e a lei, ideal supremo Bemdicto e sublimado, Fará com que passemos d'este extremo Do mal, ao Bem sonhado!...

De Deus a Idéa amplissima, infinita, Qual filha ao lar paterno, Em torno a Deus explendida gravita, No seu percurso eterno!

E tal como do cahos pavoroso, Que a custo eu mal devasso, Surgio mais tarde o mundo esplendoroso, Que rola pelo espaço!

E á eterna luz dos soes no firmamento, Celeste peregrino, Caminha sem cessar no seguimento D'um Ideal Divino:

Assim o coração febril se arrasta, Na sua lucta immensa, Atraz do Bem Supremo, e tanto basta Por base á minha crença!...

Buscando o summo Ideal por entre antitheses, Fazendo e desmanchando: O espirito concebe as largas syntheses De Deus, de quando em quando!

Ao fim de cada qual resurge a Vida, E muda os moldes velhos Por outros que se ajustam á medida Dos novos evangelhos!...

Sobre isto a historia offerece-nos exemplos!... Os criticos deparam Co'os netos desmachando um dia os templos, Que seus avós sagraram!...

D'ahi os odios vãos de fanatismo; Os multiplos revezes, Que assolam as nações co'o cataclysmo Das crenças muitas vezes!

Quem do alto vé, no entanto, a historia humana, Contempla sorridente A marcha dos destinos porque emana D'um Pae ommisciente!

Passem nos ceus, com rapidez tamanha, Os astros diamantinos; Que a terra os segue; a terra os acompanha Eguaes são seus destinos!...

Aquillo que ha de vir e que deriva D'aquillo que hoje somos, Que em si contém do Eterno a parte viva, Nos filhos o depomos!...

Os filhos são da arvore da vida A flôr dos novos fructos, A quem de Deus a essencia é transmittida, Com os seus mil attributos!

E os paes então o fructo assasonado, Já proximo da queda; Com elles cae a parte do Passado Que é morta, e Deus arreda!

E quem nas leis divinas confiando, Á fulgida seara Do bem se consagrou, não morre quando Dos vivos se separa!...

Contente desce em paz á sepultura, Na crença de que os filhos Verão mais tarde em plena formosura Dos sonhos seus os brilhos!

Na marcha ascencional da humana historia, Que a mão de Deus conduz, O filho entrou na Luz que é transitoria, O pae na eterna Luz!...

Á farta os vermes seu cadaver róam Na campa onde se esvae! Sua alma triumphante e os soes entoam Hossana a Deus que é Pae!

Abril de 1898.