Portuguese poem
Ás Nuvens
by Manuel de Arriaga (1840–1917)
Vapores que em vistosos cortinados Armaes dos ceus o templo de safira Com purpura e finissimos broxados, Sêde hoje o assumpto para a vóz da lyra!
Que eu quero ter a intima certeza Que, antes da hora da fatal partida, A minha alma no mundo fica preza Ás coisas bellas que adorei na vida...
Horas felizes que ainda hoje eu passo, Pelas tardes calmosas do verão, Seguindo-as uma a uma pelo espaço, Dizei ás nuvens se eu as amo ou não!...
Eu que vou pelo mundo imaginando Visões sobre visões, sempre illusorias: Comprazo-me em vos vêr de quando em quando, Fórmas aereas, sombras transitorias!...
Vós que nas tardes e manhãs amenas, Passando como timidas deidades, Deixaes os ceus juncados d'açucenas, D'alvos jasmins e rôxas saudades;
Vós que andaes presurosas, fugitivas, Os ceus cruzando n'um lidar constante: Sorris-me como as multiplas missivas Que envia ao Sol a Terra sua amante!...
Imagens lindas d'um amor jocundo, E espectros negros d'intimos rancores, Do grande coração que agita o mundo, O mar, que tem como eu paixões e amores!...
Á tarde quando o Sol, cratera ardente, Vae prestes a apagar-se e, em desafago, Inflamma as grandes portas do Occidente E faz da terra e ceus um mar de fogo:
Ah! deixo os olhos espraiando a vista Pelos paineis de mil preciosidades, Aonde desenhaes, com mãos d'artista, Em telas d'ouro olympicas cidades!...
E agora são rochedos e campinas!... Fulvos leões e timidas gazellas!... E logo apoz castellos em ruinas, Visões d'amor, phantasticas donzellas!...
Umas vezes são guerras estrondosas, Luctas crueis d'impavidos gigantes, Onde ha rios de sangue e pavorosas Sombras de heroes, e incendios fumegantes!...
E outras vezes, então, nuvens ligeiras, Convertei-vos em lyrios e violetas, Em acacias floridas e palmeiras, E em vultos de Romeus e Julietas!...
E eu amo a nuvem negra que imponente Abre nos ceus a fulgida garganta, E vomita do seio o raio ardente, E com elle o trovão que o mundo espanta,...
E a pudibunda nuvem d'alvorada Quando, ante o Sol esplendido que assoma, Parece virgem pura e delicada, Branca de neve com dourada coma!...
Oh nuvens que passaes no firmamento, Bandos aereos d'illusões perfeitas!... Vós que tão lindas sois, e n'um momento, No chão cahis em lagrimas desfeitas!
Quando vos vejo pelo azul profundo, Voluptuosas, gentis e transparentes: Lembraes-me os sonhos que lancei ao mundo, Como um bando de pombas innocentes!...
Bem mais felizes vós, que, n'um momento, Passando aereo fumo em valle e serra, Levaes comvosco, a vida, o movimento De quanto nasce e vive sobre a terra!...
Já não assim meus sonhos, muito embora Levem comsigo as novas do futuro: São nuvens bellas d'esplendente aurora, Desfeitas sobre um chão ingrato e duro!...
Carvalhaes, 1873.