Versos Portuguese Manuel de Arriaga Consciencia

Portuguese poem

Consciencia

by (1840–1917)

Listen in the reader

Para um homem que aspira Ao ideal da Belleza, Não ha maior tristeza, Magua maior não ha, Que vêr escurecer-se-lhe O ceu da noite escura D'alguma ideia impura, D'alguma paixão má!

Paixão que muitas vezes A luz da nossa Ideia Accende, inflama, atêa, E depois nos attrae Com tanto magnetismo, Com tal encantamento, Que o homem n'um momento Vacilla, cega e cae!...

Cae, sim, do seio esplendido Do mundo onde vivia Na mais doce harmonia Em paz co'os dias seus, Para apagada a febre Do seu fugaz delirio, Achar-se co'o martyrio De te perder oh! Deus!

Sem Ti, meu pae, que assombro! Que noite tão completa! Que acerba dôr me inquieta Meu fragil coração!... Voltar a vêr a alma D'esperanças povoada, E achal'a transformada Em lugubre soidão!

Senhor! se desabassem Á tua vóz as bellas E limpidas estrellas Dos ceus que não teem fim, Eu creio que assombrado Do horrendo cataclysmo, O Sol, d'além do abysmo, Seria egual a mim!

Eu lembraria a aguia, Que a prole ainda implume Deixando sobre o cume De monte erguido ao ceu, A fosse achar de subito Na rocha alcantilada, No ninho, fulminada D'um raio que desceu!

Egual seria o quadro Da minha consciencia, Ao ver a tua ausencia Fazer-se em mim, Senhor! Que em volta do teu astro Minha alma de poeta É pallido planeta Buscando o teu amor!

E eu sem ti nem vivo!... Tu és, oh, doce esperança, O seio onde descança Meu ser e afinal Não sei até dizer-te O quanto soffreria, Se vira extincto um dia Em mim, teu Ideal!

Oh não mil vezes antes Em carcere ermo e escuro, Achar-me de futuro A sós c'a minha dôr; Extincta a luz dos olhos, E as bellezas do mundo, E o ceu azul profundo Com todo o seu fulgor!

Tu crê que nem demandam Os mundos inferiores Fócos de luz maiores, Por esse infindo azul, Como eu o eterno centro Das leis da natureza, Do Amor, e da Belleza, Que são meu norte e sul!

Oh Pae! se n'algum dia, Eu vir, n'uma miragem, Alguma falsa imagem Do Bem prender-me aqui: Desvenda a tua face, E mostra-me o teu seio, Que, mesmo embora em meio Do abysmo, irei a ti!

Irei, tão instinctivo, Tão amoroso e firme, Eu sinto a attrair-me A ti o teu poder, Que eu vejo em ti o Norte, Para onde se encaminha A pura essencia minha, Que sente, pensa e quer!

Irei vencendo, indomito, Innumeros attrictos, E escolhos infinitos, E infindos escarceus, Como essa vaga enorme Do mar que não recua, Seguindo sempre a lua Que vê passar nos ceus!

Irei bem como a Terra Seguindo eternamente O rumo do oriente A demandar a luz; Bem como Jesus Christo O rumo solitario Da senda do calvario Á busca d'uma cruz!

Irei cá d'este mundo Onde tu me cedeste A dadiva celeste Da Rasão e do Amor: Raios vitaes que mudam Em luz a nossa essencia, E a luz em Consciencia, E esta em ti, Senhor!

Lisboa, 1869.