Portuguese poem
O Lago
by Manuel de Arriaga (1840–1917)
Scismava um dia na cruel sentença Com que a Egreja fulmina a raça humana, Deixando impura a fonte d'onde emana O sangue que me anima, e a alma que pensa:
E ao passarem no ceu do meu destino As nuvens da tristeza e da saudade, Revellou-me o Senhor alta verdade, Junto ás margens d'um lago crystalino!
Isto foi pelo mez do abrir das flôres, Quando a vida celebra os seus noivados, E o mundo, sob os verdes cortinados, Parece um doce thalamo d'amores!
Estava um dia esplendido! a animal-o Eu via o seio azul do ceu mais lindo Curvar-se sobre mim, ethereo, infindo E tepido: era um gosto enamoral-o!
Como fecho da abobada infinita, O Sol nos ceus, riquissimo objecto, Com barras d'ouro irradiava o tecto Do vasto pavilhão que o mundo habita!
Côres variadas, fórmas differentes, N'um conjuncto de graças sem egual, Debuxavam-se ali ao natural Sobre o crystal das ondas transparentes!
Alvas manchas d'insectos pequeninos, Envolvendo-se em giros caprichosos, Como tríbus de povos venturosos, Fruiam junto ao lago os seus destinos!
Pelas balsas cantava a toutinegra, E as rolas modulavam doces côros, No ar passavam fremitos sonoros Co'as vibrações da Luz que o mundo alegra!
No lago, a planta, a flôr, o ceu, a terra, Como notas d'uma unica harmonia, Revellaram-me á plena luz do dia, Enlevos que o prazer da vida encerra!...
E eu via tudo, e extatico scismava: Se por ventura a colera divina, Segundo a Egreja ao mundo inteiro o ensina, Do gremio dos felizes me affastava!...
E não podendo crer, embora obscuro Vêr-me qual sou, que esta alma de poeta, De tanto sonho explendido replecta, Atollada estivesse em lôdo impuro...
Ai! quando a Deus pergunto se prendeu N'um pó que é vil o espirito divino, Olho o espelho do lago crystalino E não encontro o lago: encontro o ceu!
O mesmo que era em cima azul, immenso, E a lampada brilhante que o alumia, Lá no fundo do abysmo aos pés os via, De sorte que em dois ceus era suspenso!
E quanto se ostentava em torno ao lago, Os muros de verdura, a flôr mimosa, O deslisar da nuvem vaporosa, E a voltear do insecto incerto e vago:
Outro tanto animava, ao longe, e ao perto, Aquella região d'azul vestida, Onde a minha alma, em extasi embebida, Contemplava na Terra um ceu aberto!
E emquanto extasiado a sós fitava, Nas bellezas do lago transparente, Aqui uma flôr, além, para o poente, A nuvemsinha branca que passava,...
Eis senão quando, uma ave, porque visse Insectos junto da agua socegada, Desceu subtil, aerea e delicada, E ao perpassar roçou-lhe a superficie,...
O ponto ferido, em ondas borbulhando, Desabrochou em curvas graciosas, Como as folhas concentricas das rosas, Ou lusidias cobras imitando!
E emquanto o impulso em torno se propaga Em circulos risonhos: n'um momento, Toda a cupula azul do firmamento Oscilla, treme e cae, e o Sol se apaga,
E a arvore, e a flôr, e quanto junto á margem, Em doce paz, seu rosto reflectia No crystalino espelho, por magia Da lei do amor, a doce lei da imagem!...
Fere-me então bem intima tristeza, Ao vêr aos pés, em sordido tumulto, Um lymbo verde e escuro onde occulto Estava um ceu tão rico de belleza!...
Lembrei-me então da minha vida insana, De quanto sonho lindo anda desfeito Nos intimos arcanos do meu peito, Co'o tropel das paixões da vida humana!...
E as lagrimas cahiram-me uma a uma Sobre esses bens que a Terra e os ceus inspiram, E ao contacto das coisas se extinguiram Como aereos balões feitos d'espuma!
N'isto o Senhor, que tudo vê e ampara, Converte-me de novo o charco immundo N'um ceu azul infindo, e n'elle um mundo Formoso como os bens que imaginara!...
Scismei então por longo espaço e digo, Que aos olhos meus por Deus fôra patente: Que a alma humana póde, ingenua e crente, Vivendo em paz, um ceu trazer comsigo!
Ah muito embora a dôr seu peito opprima, O espirito, que abrange o mundo inteiro, Póde vêr, quanto justo e verdadeiro, Nos seios d'alma os ceus que estão por cima!
Maxima grande, maxima tamanha, Tão repassada d'intima poesia, Porventura d'egual sabedoria Á predica de Christo na montanha,
Ah! sê, por entre as sombras da desdita, A ponte aerea, o arco d'alliança, Que, em vez da excommunhão que a Egreja lança, A Deus eleva a Humanidade afflicta!
Coimbra
Quinta de Santa Cruz
1871.