Portuguese poem
Presentimentos
by Manuel de Arriaga (1840–1917)
Eu bem sei que devia Causar-te muito dó, Em noite tão sombria Vêres-me aqui tão só!...
Nem sei que sol m'alegra! A sós com a minha cruz, Sou como a nuvem negra Que encerra muita luz!...
Como arvore sombria Vergada sobre um val, Assim vivo hoje em dia Á sombra do Ideal...
Que eu tenho muita fome De Justiça e d'Amor, E aqui não ha quem tome A serio a minha dôr...
O mundo vê e passa, Como sempre passou, Sorrindo da desgraça Dos tristes como eu sou...
E este sonho dourado D'amôr, que a gente vê, Não póde estar guardado N'esses homens sem fé!...
Ah! não! já não m'illudo Foi isso o que suppuz; Mas vi mudar-se em tudo Em sombra a minha luz...
E os sonhos que já tive Tão bellos, afinal, São hoje um céo que vive Sobre este lamaçal!...
Um céo que vejo, ao longe, Exposto aos olhos meus, Co'a mágoa com que um monge Veria outr'ora a Deus!...
E onde ha maior castigo, Mais dura provação, Que ter por inimigo O homem nosso irmão,
Aquelle a quem nós démos, Com toda a candidez, Os sonhos que hoje vêmos Desfeitos a seus pés?!...
Ah! suppõe-me o desgosto, De eu vêr desparecer A cópia do meu rosto Aos pés d'uma mulher,
E isto em desacato Do meu mais santo amor: E ahi tens um retrato Da minha immensa dôr,
Quando vejo desfeito Por gente ingrata e má Um sonho do meu peito, E muitos vi eu já!...
Por isso eu n'esta vida, Apoz tanta illusão, E tanta flôr perdida, Tanta corôa no chão...
Ai! sinto com o anceio, Que é proprio do infeliz, Um mal n'este meu seio Lançar muita raiz!...
Espero vêr a morte, Eu proprio a invoquei, Levar-me d'esta sorte Para onde?! É que eu não sei!...
Como eu não sei dizer-te, E isto que me consol', Como é que se converte Em vida a luz do sol!...
Como nasce a ventura Do homem que morreu, Dormir na sepultura Para acordar no céo!...
Aqui tudo é mysterio!... Mas visto que assim é, Onde ha melhor criterio Que á luz da nossa fé?
E eu creio firmemente Que o martyr de Jesus, Não fica só pendente Dos braços d'uma cruz...
Que o homem que prosegue A luz d'um Ideal; Embora a turba o pregue Na sua cruz fatal...
O céo é bem profundo, O fundo nem tu vês, E ha n'elle muito mundo, Para onde irá talvez!...
A vida continúa, E a alma, emquanto a mim, Avança e não recúa Por esses sóes sem fim!
Do sol se um raio ardente No mar vier cahir, Em nuvem transparente Nós vêmol-o subir!
Não ha suster-lhe o rumo Que o leva para os céos, E assim é que eu presumo Voarmos nós a Deus!...
O ponto é merecel-o, Que Deus é justo e pae, E eu sei com que desvelo A si os bons attrae!
Mas quando eu vejo a lua, Não sei que ideia má N'esta alma me insinua A luz que n'ella ha!...
Emquanto em torno d'ella, Ao norte, ao leste, ao sul, Refulge tanta estrella Pela amplidão do azul,
Tu vêl-a solitaria, Em paz cruzando o céo, Como urna funeraria D'um mundo que morreu!.
Ali já não ha vida!... Ali não ha calor!... N'aquella luz, vertida Em lagrimas de dôr,
Ha só tristeza e lucto, E confrange-se e doe O coração, se escuto Mulher, porque isso foi!...
Ah, tenho medo Que o Supremo Juiz Nos julgue assim tão cedo!... Não sei que voz m'o diz...
Não sei... mas, se contemplo Os crimes que ahi vão, Mulher, aquelle exemplo Conturba o coração!...
E assim só n'outra parte Verão os olhos meus Os sonhos que reparte Commigo a mão de Deus!...
O mundo onde abre o cardo E o lyrio ao mesmo sol; Onde ama o leopardo A par do rouxinol;
Que tem de andar na sombra Para viver na luz; E, o que inda mais m'assombra, Onde ha Nero e Jesus:
Por mais bello e risonho Que seja, ainda assim Não vale qualquer sonho, Que trago dentro em mim!...
Isto é um fraco esboço D'uma outra vida e crê, Que sinto-a, mas não posso Dizer-te onde ella é!...
Se a Vida em nós começa, Por esses sóes d'além, Sobre a nossa cabeça. Trabalha-se tambem!...
Mulher! mulher! quem sabe Se é isto o que m'attrae Aos céos, pois, tanto cabe A Deus, que é justo e pae...
Lisboa, 1870.