Portuguese poem
Delenda Carthago!
by Olavo Bilac (1865–1918)
Fulge e dardeja o sol nos amplos horizontes Do céu da África. Ao largo, em plena luz, dos montes Destacam-se os perfis. Tremulamente ondeia, Vasto oceano de prata, a requeimada areia. O ar, pesado, sufoca. E, desfraldando ovantes Das bandeiras ao vento as pregas ondulantes, Desfilam as legiões do exército romano Diante do general Cipião Emiliano. Tal soldado sopesa a dava de madeira; Tal, que a custo sofreia a cólera guerreira, Maneja a bipenata e rude machadinha. Este, à ilharga pendente, a rútila bainha Leva do gládio. Aquele a poderosa maça Carrega, e às largas mãos a ensaia. A custo passa, Curvado sob o peso e de fadiga aflando, De guerreiros um grupo, os aríetes levando. Brilham em confusão cristados capacetes. Cavaleiros, contendo os ardidos ginetes, Solta a clâmide ao ombro, ao braço afivelado O côncavo broquel de cobre cinzelado, Brandem o pílum no ar. Ressona, a espaços, rouca,
A bélica bucina. A tuba cava à boca Dos eneatores troa. Hordas de sagitários Vêem-se, de arco e carcás armados. O ouro e os vários Ornamentos de prata embutem-se, em tauxias De um correto lavor, nas armas luzidias Dos generais. E, ao sol, que, entre nuvens, cintila, Em torno de Cartago o exército desfila.
Mas, passada a surpresa, às pressas, a cidade Aos escravos cedera armas e liberdade, E era toda rumor e agitação. Fundindo Todo o metal que havia, ou, céleres, brunindo Espadas e punhais, capacetes e lanças, Viam-se a trabalhar os homens e as crianças.
Heróicas, abafando os soluços e as queixas, As mulheres, tecendo os fios das madeixas, Cortavam-nas. Cobrindo espáduas deslumbrantes, Cercando a carnação de seios palpitantes Como véus de veludo, e provocando beijos, Excitaram paixões e lúbricos desejos Essas tranças da cor das noites tormentosas... Quantos lábios, ardendo em sedes luxuriosas, As tocaram outrora entre febris abraços!.. Tranças que tanta vez - frágeis e doces laços! - Foram cadeias de ouro invencíveis, prendendo Almas e corações, - agora, distendendo Os arcos, despedindo as setas aguçadas, Iam levar a morte... - elas, que, perfumadas, Outrora tanta vez deram a vida e o alento Aos presos corações!...
Triste, entretanto, lento, Ao pesado labor do dia sucedera O silêncio noturno. A treva se estendera: Adormecera tudo. E, no outro dia, quando Veio de novo o sol, e a aurora, rutilando, Encheu o firmamento e iluminou a terra, A luta começou.
As máquinas de guerra Movem-se. Treme, estala, e parte-se a muralha, Racha de lado a lado. Ao clamor da batalha Estremece o arredor. Brandindo o pílum, prontas, Confundem-se as legiões. Perdido o freio, às tontas, Desbocam-se os corcéis. Enrijam-se, esticadas Nos arcos, a ringir, as cordas. Aceradas, Partem setas, zunindo. Os dardos, sibilando, Cruzam-se. Éneos broquéis amolgam-se, ressoando, Aos embates brutais dos piques arrojados. Loucos, afuzilando os olhos, os soldados, Presa a respiração, torvo e medonho o aspeito, Pela férrea squammata abroquelado o peito, Se escruam no furor, sacudindo os macetes. Não param, entretanto, os golpes dos aríetes, Não cansam no trabalho os musculosos braços Dos guerreiros. Oscila o muro. Os estilhaços Saltam das pedras. Gira, inda uma vez vibrada No ar, a máquina bruta... E, súbito, quebrada, Entre o insano clamor do exército e o fremente Ruído surdo da queda, - estrepitosamente Rui, desaba a muralha, e a pétrea mole roda, Rola, remoinha, e tomba, e se esfacela toda.
Rugem aclamações. Como em cachões, furioso, Parte os diques o mar, roja-se impetuoso, As vagas encrespando acapeladas, brutas, E inunda povoações, enche vales e grutas, E vai semeando o horror e propagando o estrago, Tal o exército entrou as portas de Cartago...
O ar os gritos de dor e susto, espaço a espaço, Cortavam. E, a bramir, atropelado, um passo O invasor turbilhão não deu vitorioso, Sem que deixasse atrás um rastro pavoroso De feridos. No ocaso, o sol morria exangue: Como que refletia o firmamento o sangue Que tingia de rubro a lâmina brilhante Das espadas. Então, houve um supremo instante, Em que, cravando o olhar no intrépido africano Asdrúbal, ordenou Cipião Emiliano: "- Deixa-me executar as ordens do Senado! Cartago morrerá: perturba o ilimitado Poder da invicta Roma... Entrega-te! -" Orgulhoso, A fronte levantando, ousado e rancoroso, Disse o cartaginês: "- Enquanto eu tiver vida, Juro que não será Cartago demolida! Quando o incêndio a envolver, o sangue deste povo Há de apagá-lo. Não! Retira-te! -" De novo Falou Cipião: Atende, Asdrúbal! Por mais forte Que seja o teu poder, há de prostrá-lo a morte! Olha! A postos, sem conta, as legiões de Roma, Que Júpiter protege e que o pavor não doma, Vão começar em breve a mortandade infrene! Entrega-te! -" "- Romano, escuta-me! (solene, O outro volveu, e a raiva em sua voz rugia) Asdrúbal é o irmão de Aníbal... Houve um dia Em que, ante Aníbal, Roma estremeceu vencida E tonta recuou de súbito ferida. Ficaram no lugar da pugna, ensangüentados, Mais de setenta mil romanos, trucidados Pelo esforço e valor dos púnicos guerreiros; Seis alqueires de anéis dos mortos cavaleiros Cartago arrecadou... Verás que, como outrora, Do eterno Baal-Moloch a proteção agora Teremos. A vitória há de ser nossa... Escuta: Manda que recomece a carniceira luta! -" E horrível, e feroz, durante a noite e o dia, Recomeçou a luta. Em cada casa havia Um punhado de heróis. Seis vezes, pela face Do céu, seguiu seu curso o sol, sem que parasse O medonho estridor da sanha da batalha... Quando a noite descia, a treva era a mortalha Que envolvia, piedosa, os corpos dos feridos. Rolos de sangue e pó, blasfêmias e gemidos, Preces e imprecações... As próprias mães, entanto, Heróicas na aflição, enxuto o olhar de pranto, Viam cair sem vida os filhos. Combatentes Houve, que, não querendo aos golpes inclementes Do inimigo entregar os corpos das crianças, Matavam-nas, erguendo as suas próprias lanças...
Por fim, quando de todo a vida desertando Foi a extinta cidade, e, lúgubre, espalmando As asas negras no ar, pairou sinistra e horrenda A morte, teve um fim a peleja tremenda, E o incêndio começou.
Fraco e medroso, o fogo À branda viração tremeu um pouco, e logo, Inda pálida e tênue, ergueu-se. Mais violento, Mais rápido soprou por sobre a chama o vento: E o que era labareda, agora ígnea serpente Gigantesca, estirando o corpo, de repente Desenrosca os anéis flamívomos, abraça Toda a cidade, estala as pedras, cresce, passa, Rói os muros, estronda, e, solapando o solo, Os alicerces broca, e estringe tudo. Um rolo De plúmbeo e denso fumo enegrecido em torno Se estende, como um véu, do comburente forno. Na horrorosa eversão, dos templos arrancado, Vibra o mármore, salta; abre-se, estilhaçado, Tudo o que o incêndio aperta... E a fumarada cresce Sobe vertiginosa, espalha-se, escurece O firmamento... E, sobre os restos da batalha, Arde, voraz e rubra, a colossal fornalha.
Mudo e triste Cipiáo, longe dos mais, no entanto, Deixa livre correr pelas faces o pranto...
É que, - vendo rolar, num rápido momento Para o abismo do olvido e do aniquilamento Homens e tradições, reveses e vitórias, Batalhas e troféus, seis séculos de glórias Num punhado de cinza -, o general previa Que Roma, a invicta, a forte, a armipotente, havia De ter o mesmo fim da orgulhosa Cartago. E, perto, o precipitar estrepitoso e vago D0 incêndio, que lavrava e inda rugia ativo, Era como o rumor de um pranto convulsivo...