Portuguese poem
Na fonte está Lianor
by Pedro de Andrade Caminha (1520–1589)
A esta cantiga alheia:
Na fonte está Lianor Lavando a talha e chorando, Às amigas perguntando: Vistes lá o meu amor?
Mil sinais nela se vêm De sua tristeza e cuidado: Chorar, perguntar «se vem»? E olhar desassossegado. Leva-lhe os olhos o amor Que lhe foi a alma levando, E ela por eles chorando Pergunta por seu amor.
Detém-se em lavar a talha Por desculpar sua tardança, E não quer que a dele valha Para perder a lembrança. Chora, e diz com grande dor Sem sentir que está falando: «Vai-se-me a vida acabando Porque não vem meu amor!»
Inda que lhe a água faltara Da fonte, nada lhe dera, Que a dos olhos lhe bastara Para quanto falecera. Sobeja-lhe em tudo dor, Vai-lhe todo bem faltando, E diz já desconfiando: «Cedo morrerá Lianor!»