Portuguese poem
Vida da minh'alma
by Pedro de Andrade Caminha (1520–1589)
(Original) Vida da minh'alma, Não vos posso ver; Isto não é vida, Hei-me de perder.
Não pode a vontade Onde vive amor, Esconder saudade, Nem encobrir dor. Não há mal maior, Nem há mais morrer, Que ver-me com vida, Sem vos poder ver.
Neste bem que quero N'alma e no desejo, Vivo do que espero, Mouro do que vejo. Faz-me a vida pejo, Pois não posso ver, Quem me tem a vida, E sempre há de ter.
(no Cancioneiro de Paris) Vida da minha alma, Não vos posso ver; Isto não é vida, Hei-me de perder.
Dês que fui ausente Donde vós estais, Nunca vivi mais, Um dia contente. Sou tão diferente, Do que soía a ser, Isto não é vida, Hei-me de perder.
Dês que vos vi vida Nunca mais a tive, Minha pena vive, Minha dor crescida. Já tenho perdida, Esperança de viver, Isto não é vida, Hei-me de perder.
Não me dá coitado Cuidado lugar, Que possa cuidar, Em outro cuidado. Pois deste apartado, Já não pode ser, Isto não é vida, Hei-me de perder.
De mim inimigo É o meu desejo, Que quando vos vejo, Vejo meu perigo. Tomasse comigo, Não me val dizer, Isto não é vida, Hei-me de perder.
Hei-me de perder Porque vos não vejo, Que com tal desejo, Mal posso viver. Poder cá dizer, Que perdi a vida, E bem mal perdida, Pois é sem vos ver.
Não pode a vontade Onde vive amor, Esconder saudade, Nem encobrir dor. Não há mal pior, Nem há mais morrer, Que ver-me com vida, Sem vos poder ver.
Neste bem que quero N'alma e no desejo, Vivo do que espero, Mouro do que vejo. Cuidado sobejo, Me tem sem vos ver, Com mais triste vida, Que vendo-a perder.
Sempre desejei De muito perdido, Ter-vos escondido, O mal que busquei. Faziam minh'alma, Por vos poder ver, Tem dele sabido, Hei-me de perder.
Mouro por vos ver E se este desejo, De tão longe vejo, Que posso querer. Quero não viver, Quero não ter vida, Quero-a perdida, Quero-me perder.