Portuguese poem
Xácara do Cego
by Sílvio Romero (1851–1914)
Sinhá da casa, Venha ver seu pobre; Nem por vir pedir Deixo de ser nobre.
"Não pode ser nobre Quem vem cá pedir; Não há que lhe dar, Já pode seguir.
—Não useis comigo Tanta ingratidão, Deste pobre cego Tende compaixão. "Eu não sou dona, Nem governo nada, A dona da casa Ainda está deitada.
—Se está deitada Ide-a chamar; Que o pobre do cego Lhe quer falar.
"Acordai, senhora, Do doce dormir; Vinde ver o cego Cantar e pedir.
—"Si ele canta e pede Dai-lhe pão e vinho, Para o pobre cego Seguir seu caminho
Larga, Aninha, a roca E também o linho: Vai ensinar o cego Seguir seu caminho.
"Aqui fica a roca, Acabou o linho; Marchai adiante, cego, Lá vai o caminho.
—Anda, anda, Aninha, Mais um bocadinho; Sou curto da vista, Não enxergo o caminho.
"De conde e fidalgo Me vi pretendida, Hoje de um cego Me vejo rendida.
—Cala-te, condessa, Prenda tão querida, Eu sou este conde Que te pretendia.
"Cala-te, conde, Não digas mais nada; Só quero saiamos Daqui desta estrada.
Infinitas graças Vos dou, meu senhor, Já ter vencido Um cruel amor.