Portuguese poem
Diz O Marquez
by Visconde de Almeida Garrett João Batista da Silva Leitão de Almeida Garrett
Fingindo andar perdido na caça
Fortunosa caça é ésta que a fortuna me ha mostrado, poisque, por ser manifesta minha pena e gran’ cuidado, me mostrou ésta floresta. Nunca vi tam forte brenha, desque me accórdo de mi; eu creio que Margasi fez ésta serra d’Ardenha, estes campos de Methli. Quero tocar a bosina por ver se algum me ouvirá; mas cuido, que não será, porque minha gran’ mofina commigo começou ja. Todavia quero ver, se mora alguem n’esta serra, que me diga d’esta terra cuja é, para saber; que quem pergunta não erra. Por demais é o tanger em logar deshabitado, onde não ha povoado, nem quem possa responder ao que lhe for perguntado. Gran’ mal é o caminhar por tam fragosa montanha, cançado assim sem companha, nem tendo onde repousar, n’esta terra tam estranha. Vejo o matto tam cerrado, que fiz bem de me apear, e meu cavallo deixar, porque está tam cançado que ja não podia andar. Agora vejo-me aqui n’esta tam grande espessura, que nem eu me vejo a mi, nem sei de minha ventura; nem menos será cordura, repousar n’este logar, nem sei onde possa achar descanço á minha tristura.
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