Portuguese poem
Iv
by Visconde de Almeida Garrett João Batista da Silva Leitão de Almeida Garrett
«Sanctiago!.. Cerra, cerra! Sanctiago, e a matar!» Abertas estão as portas Da torre de par em par;
Nem atalaias nos muros Nem roldas para as velar. Os moiros despercebidos Sentem-se logo apertar
De um tropel de leonezes Ja portas a dentro a entrar. Deixa a bozina Ramiro, Mão á espada foi lançar,
E, de um só golpe, fendente, Sem mais pôr nem mais tirar, Parte a cabeça até os peitos Ao rei moiro Alboazar.
Ja tudo é morto ou captivo, Ja o castello está a queimar, Ás galés, com seu despojo, Se foram logo imbarcar.
--«Voga, rema! d'além Doiro Á pressa, á pressa a passar, Que ja oiço alli na praia Cavallos a relinchar.
«Bandeiras são de Leão Que lá vejo tremular: Voga, voga, que além Doiro É terra nossa!.. a remar!
«D'aqui é moirama cerrada Até Coimbra e Thomar. Voga, rema, e d'além Doiro! D'aquem não ha que fiar.»
Á poppa vai Dom Ramiro De sua galé real, Leva a rainha á direita Como quem a quer honrar:
Ella muda, os olhos baixos Leva n'agua... sem olhar, E como quem de outras vistas Se quer so desaffrontar.
Ou Dom Ramiro fingia Ou não vem n'isso a attentar: Ja vão a meia corrente, Sem um para o outro fallar.
Ainda arde, inda fumega O alcaçar de Alboazar: Gaia alevantou os olhos, Triste se poz a mirar;
As lagrymas, uma e uma, Lhe estavam a desfiar, Ao longo, longo das faces Correm... sem ella as chorar.
Olhou elrei para Gaia, Não se pôde mais callar: Cuidava o bom do marido Que era remorso e pezar
Do mau termo atraiçoado Que com elle fôra usar Quando o intregou ao moiro Tam so para se vingar.
Com a voz internecida Assim lhe foi a fallar: --«Que tens, Gaia... minha Gaia? Ora pois! não mais chorar,
«Que o feito é feito...»--«E bem feito!» Tornou-lhe ella a soluçar, Rompendo agora n'uns prantos Que parecia estalar:
«E bem feito, rei Ramiro! Valente acção! de pasmar! Á lei de bom cavalleiro, Para de um rei se contar!
«Á falsa fe o mataste... Quem a vida te quiz dar! Á traição... que d'outro modo Não es homem para tal.
«Mataste o mais bello moiro, Mais gentil, mais para amar Que entre moiros e christãos Nunca mais não terá par.
«Perguntas-me porque choro!.. Traidor rei, que heide eu chorar? Que o não tenho nos meus braços, Que a teu poder vim parar.
«Perguntaste-me o que miro!.. Traidor rei, que heide eu mirar? As torres d'aquelle alcaçar Que ainda estão a fumegar:
«Se eu fui alli tam ditosa, Se alli soube o que era amar, Se alli me fica alma e vida... Traidor rei, que heide eu mirar?»
--«Pois mira, Gaia!» E, dizendo, Da espada foi arrancar: «Mira, Gaia, que esses olhos Não terão mais que mirar.»
Foi-lhe a cabeça de um talho; E com o pé, sem olhar, Borda fóra impuxa o corpo... O Doiro que os leve ao mar.
Do estranho caso inda agora Memoria está a durar: GAIA é o nome do castello Que alli Gaia fez queimar;
E d'além Doiro, essa praia Onde o barco ia a aproar Quando bradou «Mira, Gaia!» O rei que a vai degollar,
Ainda hoje está dizendo Na tradição popular, Que o nome tem--MIRAGAIA D'aquelle fatal mirar.