Versos Portuguese Visconde de Almeida Garrett João Batista da Silva Leitão de Almeida Garrett Rosalinda

Portuguese poem

Rosalinda

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Era por manhã de maio, Quando as aves a piar, As árvores e as flores, Tudo se anda a namorar;

Era por manhã de maio, Á fresca riba de mar, Quando a infanta Rosalinda Alli se estava a toucar.

Trazem das flores vermelhas, Das brancas para a infeitar; Tam lindas flores como ella Não n’as poderam achar:

Que é Rosalinda mais linda Que a rosa, que o nenuphar, Mais pura que a açucena Que a manhan abre a chorar.

Passava o conde almirante Na sua galé do mar; Tantos remos tem por banda Que se não podem contar;

Captivos que a vão remando A Moirama os foi tomar; D’elles são grandes senhores, D’elles de sangue real:

Que não ha moiro seguro Entre Ceuta e Gibraltar Mal sai o conde almirante Na sua galé do mar.

Oh que tam linda galera, Que tam certo é seu remar! Mais lindo capitão leva, Mais certo no marear.

—‘Dizei-me, o conde almirante Da vossa galé do mar, Se os captivos que tomais Todos los fazeis remar?’

—‘Dizei-me, a bella infanta, Linda rosa sem egual, Se os escravos que lá tendes Todos vos sabem toucar?’

—‘Cortez sois, Dom Almirante: Sem responder, perguntar!’ —‘Responder, responderei, Mas não vos heisde infadar:

‘Captivos tenho de todos, Mais bastos que um aduar; Uns que mareiam as velas, Outros no banco a remar:

‘As captivas que são lindas Na poppa vão a dançar, Tecendo alfombras de flores Para o senhor se deitar.’

—‘Respondeis, respondo eu, Que é boa lei de pagar: Tenho escravos para tudo, Que fazem o meu mandar;

‘D’elles para me vestir, D’elles para me toucar... Para um só tenho outro imprêgo, Mas está por captivar...

—‘Captivo está, tam captivo Que se não quer resgatar. Rema, a terra a terra, moiros, Voga certo, e a varar!’

Ja se foi a Rosalinda Com o almirante a folgar: Fazem sombra as larangeiras, Goivos lhe dão cabeçal.

Mas fortuna, que não deixa A nenhum bem sem dezar, Faz que um monteiro d’elrei Por alli venha a passar.

—‘Oh monteiro, do que viste, Monteiro, não vás contar: Dou-te tantas bolsas de oiro Quantas tu possas levar.’

Tudo o que viu o monteiro A elrei o foi contar, A casa da estudaria Onde elrei stava a estudar.

—‘Se á puridade o disseras, Tença te havia de dar: Quem taes novas dá tam alto, Alto hade ir... a inforcar.

‘Arma, arma, meus archeiros Sem charamellas tocar! Cavalleiros e piões, Tudo á tapada a cercar.’

Inda não é meio dia, Começa a campa a dobrar; Inda não é meia noite, Vão ambos a degollar.

Ao toque de ave-marias Foram ambos a interrar: A infanta no altar mor, Elle á porta principal.

Na cova da Rosalinda Nasce uma árvore real, E na cova do almirante Nasceu um lindo rosal.

Elrei, assim que tal soube, Mandou-os logo cortar, E que os fizessem em lenha Para no lume queimar.

Cortados e recortados, Tornavam a rebentar: E o vento que os incostava, E elles iam-se abraçar.

Elrei, quando tal ouviu, Nunca mais pôde fallar; A rainha, que tal soube, Cahia logo mortal.

—‘Não me chamem mais rainha, Rainha de Portugal... Apartei dous innocentes Que Deus queria juntar!’