Portuguese poem
O Cego
by Visconde de Almeida Garrett João Batista da Silva Leitão de Almeida Garrett
—‘Abre a porta, Anna, abre de mansinho, Que venho ferido, morto do caminho.’ —‘Se vindes ferido, pobre coitadinho! Ireis muito embora por outro caminho.’ —‘Ai! abre-me a porta, abre de mansinho, Que tam cego venho, não vejo o caminho.’ —Porta nem postigo não abro ao ceguinho, Va-se na má hora pelo mau caminho.’ —‘Ai do pobre cego que anda sosinho Cantando e pedindo por esse caminho!’
Minha mãe acorde, oiça aqui baixinho Como canta o cego que perdeu o caminho.’ —‘Se elle canta e pede, da-lhe pão e vinho; E o pobre cego que va o seu caminho.’ —‘O teu pão não quero, não quero o teu vinho, Quero só que Anninhas me insine o caminho.’ —‘Toma a roca, Anna, carrega-a de linho, Vai com o pobre cego, pô-lo a caminho.’
—‘Espiou-se a roca, acabou-se o linho, Fique embora o cego, que este é o seu caminho.’ —‘Anda mais, Anninhas, mais um bocadinho, Sou um pobre cego, não vejo o caminho.’ —Ai! arreda, arreda para este altinho, Que ahi véem cavalleiros por esse caminho.’ —‘Se vêem cavalleiros, vêem de vagarinho, Que ha muito me tardam por este caminho.’ A cavallaria passou de mansinho... Cego, lo meu cego ja via o caminho. Montou-me a cavallo com muito carinho... Um cego me leva... e vejo o caminho!
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