Portuguese poem
O Captivo
by Visconde de Almeida Garrett João Batista da Silva Leitão de Almeida Garrett
Eu vinha do mar de Hamburgo N’uma linda caravella; Captivaram-nos os moiros Entre la paz e la guerra. Para vender me levaram A Salé, que é sua terra. Não houve moiro nem moira Que por mim nem branca dera; Só houve um perro judio Que alli comprar-me quizera; Dava-me uma negra vida, Dava-me uma vida perra: De dia pisar esparto, De noite moer canella, E uma mordaça na bôcca Para lhe eu não comer d’ella. Mas foi a minha fortuna. Dar c’uma patroa bella, Que me dava do pão alvo, Do pão que comia ella. Dava-me do que eu queria, E mais do que eu não quizera, Que nos braços da judia Chorava—que não por ella.
Dizia-me então:—‘Não chores, Christão, vai-te á tua terra.’ —‘Como me heide eu ir, senhora, Se me falta la moeda?’ —‘Se fôra por um cavallo, Eu uma egua te dera; Se fosse por um navio, Dera-te uma caravella.’ —‘Não fôra por um cavallo, Não fôra, senhora bella, Que está longe Mazagão, Ceuta tem voz de Castella. Nem por navio não fôra, Que eu fugir não quizera, Que era roubar a teu pae Dinheiro que por mim dera.’ —‘Toma ésta bolsa, christão, Feita de seda amarella; Minha mãe quando morreu Me deixou senhora d’ella. Vai-te, paga o teu resgate; E ás damas de tua terra Dirás o amor da judia Quanto mais vale que o d’ellas.’
Palavras não eram dittas, O patrão que era chegado. —‘Venhais embora, patrão, E vinde com Deus louvado, Que agora tenho recado Que o meu resgate é chegado.’ —‘Christão, Christão, que disseste! Olha que é muito cruzado. Quem te deu tanto dinheiro Para seres resgatado?’ —‘Duas irmans m’o ganharam. Outra m’o tinha guardado; E um anjo do ceo m’o trouxe, Um anjo por Deus mandado.’ —‘Dize-me, ó christão, dize Se queres ser renegado, Que te heide fazer meu genro, Senhor de todo o meu estado.’ -—‘Eu não quero ser judio E nem turco arrenegado, E não quero ser senhor, De todo esse teu estado, Porque trago no meu peito A Jesus crucificado.’
—‘Que tens tu, filha Rachel? Dize-me cá, filha amada, Se é pelo christão malditto Que ficaste desgraçada.’ —‘Meu pae, deixe o christão, deixe, Que elle não me deve nada: Deve-me a flor de meu corpo, Mas de vontade foi dada.’
Mandou fazer-lhe uma tôrre De pedraria lavrada; Que não dissessem os moiros: —‘A judia é deshonrada.’ Violla, minha violla, Fica-te aqui pendurada, Que lá vão os meus amores Por essa agua salgada.
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