Portuguese poem
O Anjo E A Princeza
by Visconde de Almeida Garrett João Batista da Silva Leitão de Almeida Garrett
Oh que choros vão no paço Oh que luttos, que tristeza! Morre, morre a cada instante A nossa linda princeza.
Os physicos não se intendem, Vão-se uns e outros vêem; Mas o mal que ella padece Não lh’o descobre ninguem.
Nos olhos que se lhe inturvam, Ja treme a luz derradeira. Resa o officio da agonia Negro monge á cabeceira.
Se inda chegará a tempo D’essas guerras d’além-mar O bom do rei, que inda possa A sua filha abraçar!
A filha que elle ama tanto, Unica filha querida, A menina dos seus olhos, Bordão da cansada vida!
Pois chegou. Tanto captivo, Tanto despôjo que traz!... Com victorias o inganava Fortuna, que acinte o faz.
Pelas portas de palacio O real cortêjo entrava, Olha o rei a um lado e outro, Nem uma voz o acclamava...
Pela filha, que não via, Não se atreve a perguntar, Mas ao quarto da princeza Foi direito sem parar:
—‘Minha filha, minha filha! Que tens tu, filha querida?’ E ella abria os olhos turvos Que ja não teem quasi vida...
‘Ametade do meu reino, Da minha c’roa real, A quem salvar a princeza, Quem acertar c’o este mal.’
A éstas palavras do pae Meneia a pallida frente, Como quem diz:—‘Não o entendem, Nem cura o meu mal consente.’
—‘São pezares... não se sabe...’ Responde o physico-mor, ‘Outro mal lhe não descubro... Só se for o mal d’amor.’
Um rubor desfallecido Assomou na face lenta Que já do suor da morte Se cobria macilenta.
Os olhos, que no pae tinha Cravados desde que o viu, Com mostras de pêjo e medo Para a terra os descahiu.
—‘Não tenhas, filha, receio, Levanta os olhos, querida; Seja quem for, será teu: Jurei-o por tua vida.
‘Seja elle ou ricco ou pobre, Seja fidalgo ou peão, Desde já por genro o tómo, E aqui lhe dou tua mão.’
Como quem o último esfôrço De doce mágoa fazia, Com ineffavel brandura Os olhos ao pae erguia;
Suave, longo suspiro D’entre os labios lhe fugiu... Era a vida que passava, Que sem dor se despediu.
Foram para a amortalhar, No peito um signal lhe achavam De letras que ninguem leu, Que estranhas fórmas tomavam.
Sette sabios são chamados Para haver de as deciphrar: Cada-um sette linguas sabe, Não n’as podem soletrar.
Só o mais velho dos sette, Que andára na Palestina, Disse:—‘Outras letras como éstas Eu já vi n’uma ruina,
‘Junto dos cedros do Libano, Ja meio entre a terra e os ceos, Do tempo que ás filhas do homem Fallavam anjos de Deus.
‘Mas le-las não sei nem posso: Nem que soubesse, o fizera: Segredos são d’outro mundo Que, n’este, Deus não tolera.’
No alto d’aquelle monte Um alto cedro nasceu; Ou anjos o semearam, Ou foram aves do ceo,
Que ali cresceu de repente, De uma noite para um dia; E outro igual em todo o reino Como aquelle não havia:
Foi a noite que a princeza Alli veio a sepultar: Era um sitio seu querido Donde sohia de estar,
Aonde horas esquecidas, Sósinha, de quando em quando, Com as estrellas do ceo Parecia estar fallando;
E onde, uma noite sem lua Que as estrellas mais brilhavam, Houve quem visse nos ares Umas roupas que alvejavam,
E descer a pouco e pouco, E aopé da infanta parar Um vulto... visão... ou sombra... Mas sombra de luz sem par:
E foi desd’aquella noite Que a não viu mais rir ninguem. Anjo era o que lhe fallava... Mas se de Deus... ou de quem?...
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