Versos Portuguese Visconde de Almeida Garrett João Batista da Silva Leitão de Almeida Garrett O Cegador

Portuguese poem

O Cegador

by

Listen in the reader

O imperador de Roma Tem uma filha bastarda A quem tanto quer e tanto Que a traz mui mal criada. Pedem-lh’a condes, senhores, Homens de capa e d’espada; Ella isenta e desdenhosa A todos lhes punha tacha: Um é criança, outro é velho, Este que não tinha barba, Aquelle que não tem pulso Para puchar pela espada. Dizia-lhe o pae surrindo: —‘Inda hasde ser castigada! De algum villão de porqueiro Te espero ver namorada.’

Por manhan de San’ João, Manhan de doce alvorada, Ao seu balcão muito cedo A infanta se assomava. Viu andar tres cegadores Fazendo sua cegada; O mais pequeno dos tres Era o que mais trabalhava. Fitta que traz no chapeu De oiro e seda era bordada; Fina prata que luzia A foice com que ceifava. De seu garbo e gentileza A infanta se namorava. O ceifeiro vai ceifando... Bem sabe elle o que ceifava!

Alli estava a aia discreta Em quem toda se fiava: —‘Ves, aia, aquelle ceifeiro Que anda n’aquella cegada? Condes, duques, cavalleiros, Nenhum que o ceifeiro valha. Vai-m’o chamar em segredo, Que ninguem não saiba nada.’

—‘Bom cegador, vem commigo, Que te quer fallar minha ama.’ —‘Tua ama, não n’a conheço Nem tam pouco a quem me chama.’ —‘Cegador de boa estrea, Traze’la vista mui baixa: Alça os olhos e verás A estrella da madrugada.’ —‘Vejo o sol que vem nascendo, Não vejo a estrella d’alva.’ —‘Estrella ou sol, vens commigo?’ —‘Irei, pois quem póde, manda.’

Entraram por um postigo, Que a porta inda era cerrada; No camarim da princeza O bom do ceifeiro estava. —‘Senhora que me quereis? Pois venho á vossa chamada.’ —‘Quero saber se te atreves A fazer minha cegada?’

—‘Atrever, me atrevo a tudo; Trabalho não me accovarda. Dizei vós, senhora minha, Onde é a vossa cegada.’ —‘Não é no monte ou no valle, No baldio ou na coitada; Cegador, é nos meus braços, Que de ti estou namorada.’

Passou todo aquelle dia, O mais da noite passava, Ceifando vai o ceifeiro... Bem sabe elle o que ceifava! —‘Basta, basta, cegador, Feita está tua cegada: Vai-te, que meu pae não venha, Antes de ser madrugada.’

Palavras não eram dittas, O pae á cama chegava: —‘Com quem fallas, minha filha, Tam cedo de madrugada?’ —‘Fallo com ésta minha aia Que me tem desesperada; Uma cama tam mal feita Que dormir me não deixava.’ —‘É forte aia essa tua Que a barba tem tam cerrada! Vista-se ja a donzella, Que, antes de ser madrugada, Pelo barbeiro do algoz A quero ver barbeada.’ O cegador muito inchuto Sua sentença escutava, Com uma mão se vestia, Com a outra se calçava. Saltou no meio da casa Como se não fôra nada: —‘Venha ja esse barbeiro Com a navalha affiada: Ao duque de Lombardia Veremos quem faz a barba.’

O imperador mui contente Depressa alli os casava. Não quiz senhores, nem condes Homens de capa ou de espada, Senão só o cegador Que andava em sua cegada. Podia ser um porqueiro Que a deixasse deshonrada... Sahiu-lhe um duque reinante, Senhor de alta nomeada. Pois tudo é sorte no mundo, A sorte foi bem deitada.