Portuguese poem
Xi
by Visconde de Almeida Garrett João Batista da Silva Leitão de Almeida Garrett
Fôra d’alli a condessa, Não tardou em ir o rei: —‘Quero ouvir o que elles dizem, A ésta porta escutarei.’
Ouviu uma voz celeste Como tal nunca ouvirei, Cantando em doce toada Este triste vireley:
—‘Já fui vinha bem cuidada, Bem querida, bem trattada: Como eu medrei! Ora não sou nem serei: O porquê não sei Nem n’o saberei!’
Com as lagrimas nos olhos Foi d’alli o bom do rei: —‘Oiçamos agora o outro, E o que sabe, saberei!’
—‘Minha vinha tam guardada! Quando n’ella entrei Rastos do ladrão achei; Se me elle roubou não sei: Como o saberei?’
Era o conde a lastimar-se. Surrindo dizia o rei (Se era de si ou do conde Que elle se ria não sei):
—‘Eu fui que na vinha entrei, Rastos de ladrão deixei, Parras verdes levantei, Uvas bellas N’ellas—vi: E assim Deus me salve a mi Como d’ellas Não comi!’