Portuguese poem
Xii
by Visconde de Almeida Garrett João Batista da Silva Leitão de Almeida Garrett
Com a cabeça cuberta Do seu agudo capuz, Os olhos de côr incerta, Pasmados, fixos... e a luz Que d’elles sai é tam viva Que a espaços da vista priva Quem de perto os quer fitar! As mãos cruzadas no peito, Vagaroso seu andar, Tam pesado e de tal geito Que faz um echo tremendo Quando os passos vai movendo, E como que a terra e o ar, Com o pêso vão gemendo... —Foi seu caminho direito Da tôrre á porta ferrada; Sem attender a mais nada, Sem olhar nem para Auzenda, Que em lagrymas debulhada Supplices mãos lh’estendia. Chega á porta, e em voz horrenda —‘Abre-te!’—disse. Estallou O ferro medonhamente, E a porta se escancarou, —Mas elle subitamente, Voltando-se para a turba, Que alto alarido alevanta E em derredor se perturba, Com gesto que aos mais ousados Todo o ânimo quebranta, —‘Immudecei!’ lhes bradou. Ficaram todos callados; E—immudecei—revibrou De echos em echos dobrados Pelo castello e jardim, Pelos soutos ao redor, Pelos campos dilatados Que a Dom Sisnando obedecem E por senhor reconhecem Ao ricco-homem de Landim. —Depois estendendo a mão Ao logar onde jazia Por morto no frio chão O desgraçado Sisnando, Éstas palavras dizia Que em ouco som vão soando:
—‘Eu te esconjuro, Alma perdida, Volta-te á vida!
‘Que o teu peccado, Abominado Do proprio inferno, Só tem perdão Com longa vida De penitencia, De contrição, Que a alma perdida Salve do inferno, Da maldicção.
‘Eu te esconjuro, Alma perdida, Volta-te á vida!
‘O anjo celeste Na hora última Te perdoou, E ao Pae Eterno A tua victima Por ti rogou
‘Lazaro immundo, N’esta grande hora Volve-te á vida, Vem, surge fóra!’