Versos Portuguese Abílio Manuel Guerra Junqueiro Ii

Portuguese poem

Ii

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E entre esse tabidos fermentos, Entre esses horror de coisa más, Fóssa á procura de alimentos, Um porco immundo--Satanaz.

Essa latrina de Pandora, Pensando bem, é a final A escarradeira onde expectora Jehovah a bilis immortal.

Como elle é velho, com o frio Tósse; o Prudhome diz-lhe então: --Deus, aqui tens este bacio... Não vás cuspir no meu salão.

E ás vezes do alto do infinito, Talvez depois d'um mau jantar, O Padre Eterno faz cabrito E enche o bacio a transbordar.

E o pote enorme onde cuspinha O truculento Manitu, Sem ninguem vêr, logo á noitinha Vai despejal-o Belzebut.

Vai despejal-o, ó crueldade! Lá nessas torridas galés, Onde Deus assa a humanidade No fogo--a que elle aquece os pés!

Porque, ó eternos desherdados Da raça impura de Cain, Morrendo sois encaixotados Sem agua benta e sem latim.

Se algum vos dão é já com ranço, É já latim para hospitaes, Feito com cisco de ripanso E as varreduras dos missaes.

A egreja dá, barata feira! Ao vosso ultimo estertor Oleos de azeite de purgueira E ostias de trapos com bolor.

Por isso a valla é um alçapão De d'onde rue a todo instante Um tremedal de podridão N'um mar de enxofre flammejante.

Castigo barbaro e nefando! Em monstruozos caldeirões Ondas de pez tonitruando, Roucos, uivando, aos borbotões,

E dentro vós, pobres captivos, Em sangue, em chagas, todos nus, A morrer sempre e sempre vivos, Sempre a coser e sempre crus!

Em lagos rutilos de estanho, Bramindo pragas em latim, Milhões de herejes tomam banho... Olhae que espiga um banho assim!...

Estes frigidos em certans, Dentro do azeite que extravasa. Outros perneando, como rans, Na empalação d'um raio em brasa!

Uns são torrados sobre grelhas. E os diabos vem continuamente N'aquellas nadegas vermelhas Cravar com furia o seu tridente!

Muitos estoira-lhes a pança Entre os colericos anneis De vinte cilhas, que lembrança! Feitas de cobras cascaveis!

E em torno aos fulgidos brazeiros Onde um bom Deus, poderoso e justo Rebenta as almas aos milheiros, Como as castanhas n'um magusto,

Pincham selvaticos fandangos Satans freneticos e maus, Rabudos como ourangotangos, Cornudos como Menelaus!

E é por não dar uns seis ou sete Tostões ao odre de um abade Que a Providencia vos derrete, Impios, por toda a eternidade!

Congrua e folar--palha e bolota Ao teu abade, impio, não dás? Pois bem, Deus põe-te de compota N'um molho ardente de aguarraz.

Ah, tu rebelde, ah, tu faminto, Nunca a chorar foste depor Tres mil remorsos com um pinto Nas mãos d'um padre confessor?

Ah, tu mandaste a Egreja á fava? Nunca compraste uma cartilha? Cose-te em pez, torra-te em lava. Anda, meu besta, meu pandilha!

É em quanto Deus te frita os untos E o coração n'uma panella, Que vida airada os bons defunctos Passam no céo!... que vida aquella!

Pois cá por baixo aos maganões Nunca tambem lhes faltou nada; Tiveram crenças e milhões... Deus gosta assim de gente honrada.

Comeram optimos jantares, Perfeitamente digeridos; Foram christãos e titulares. Bons paes, bons filhos, bons maridos.

Aos seus palacios luculianos (O que é virtude e pundonor!) Durante quasi oitenta annos Não bateu nunca um só credor!

Amaram todos os pecados, Que são mortaes, mas são gentis, Com todo o encanto fabricados Para os banqueiros, em Pariz.

Dormira sempre n'um bom leito Co'as mais formosas cortezãs. E o ventre sempre satisfeito, E livre... todas as manhãs.

Gozaram sim, mas na verdade Foram á missa muitas vezes, Com toda a pompa e magestade Dentro dos seus landeaus inglezes.

Se algum remorso impertinente As almas castas lhes mordia, Catava-o logo com um pente Um bispo n'uma sacristia.

Crendo nos dogmas mais profundos, E achando a vida um bom lameiro Tiveram sempre Auctor dos Mundos Por um perfeito cavalheiro.

Deram de graça a varios santos, A Jesus Christo e á mãe das Dôres C'roas, chinós, tunicas, mantos, Burseguins d'oiro e resplendores.

Por isso o tal Author, que acabo Do vos citar, os tratou bem; Deus é levado do diabo Só para os pulhas sem vintem.

E quando ao cabo da funcção, --Velhos sem dentes, já na espinha, A Morte, de chapeu na mão, Lhes foi tocar á campainha,

Para espicharem dignamente, Agasalhados na sua cama, O papa enviou-lhes de presente A benção n'este telegrama:

«Remete benção Divindade. Legado Pedro quinze contos. Escrevi céo Hotel Trindade Tenham chegada quartos promptos.»

E após um grande funeral, A que assistiu o high-life inteiro, Desde o arcebispo ao general E desde o principe ao banqueiro,

Seus corpos, onde não remexe O verme vil que trinca os parias Embalsamados do escabeche Em grandes latas funerarias,

No palacete d'uma campa Foram guardados, qual thesoiro, Dentro d'um cofre em cuja tampa Ha versos maus em letras d'oiro.

E as almas, promptas para a festa Do seu olimpico noivado, Com uma aureola na testa E azas soberbas no costado,

Partiram leves, subrepticias. Entre o esplendor de cem auroras, Lá para o Reino de Delicias. Onde estarão a estas horas

Feitas bebés, comendo um keque, Tocando frauta ou tamboril, Ou arrastando a aza em leque Ingenuamente... ás onze mil.

Ah, miseravel, ah precito, Que lá dos baratros christãos Ergues ao Tigre do infinito Os dois archotes das tuas mãos,

Vê tu como é conveniente, E justo em todos os sentidos, Herdar um homem d'um parente Seiscentos contos garantidos,

Gozar, sem medo á vida eterna, Toda esta bella patuscada, Desde a luxuria mais moderna Á gula mais civilisada,

E ao terminar tão bom fadario Morrer, ouvindo alguns latins, Com treze kilos de calcareo, --Onze na alma, e dois nos rins;

E, na mais intima harmonia Com Satanaz e com Jesus, Ir para a cova á luz do dia, De farda rica e de gran-cruz,

E entre tocheiros deslumbrantes Ser bem comido e bem jantado Por alguns vermes elegantes N'um gabinete reservado!...