Portuguese poem
I
by Abílio Manuel Guerra Junqueiro
Valla commum--tasca nojenta, Mesa redonda sepulchral, Aonde a toalha crapulenta É um lençol roto do hospital,
E aonde as larvas proletarias Devoram--lugubres festins!-- Craneos de heroes, ventres de parias, Carcassas podres de arlequins,
Ao contemplar-te, ó libertina, Um nojo immenso me accomette: Tens a avidez de Messalina Na boca negra de Machbet!
Na treva aziaga o crime o os vicios, Para o menu do teu jantar, Dão-te as creanças dos hospicios E as barregãs do lupanar.
Em teu estomago de hyena Vão-se abysmar, monstro cruel, Rios de sangue com gangrena E ondas de lagrima com fel.
Cloaca putrida e funerea, Feira da ladra edionda e vil, És o saguão onde a miseria Despeja á noite o seu barril.
Trituras, lobrega sargeta, Sem que o horror te engasgue e abafe Os seios virgens de Julieta E a pança obscena de Faltstaff.
Cinismo atroz que a alma oprime, Fetida e funebre impudencia! A boca esqualida do crime Posta na boca da innocencia!
O abutre e a pomba, o cardo e a anemona Na mesma leiva apodrecida: Tropman chegando-se a Desdemona, E Papavoine a Margarida!
Virtude, amor, crime, deboche Promiscuamente a fermentar! Mimi Pinson e Rigolboche! Cain e Abel! estrume e luar!
Oh, bulimia tenebrosa! Monstruosidade apocalyptica Tudo te serve: ou cancro ou rosa, Ou flôr doirada ou flôr syphlitica.
Anjos que vem do paraiso, Candura etherea e perfumada, Feitos d'um beijo e d'um sorriso, N'algum jardim, de madrugada.
Vão confundir-se n'essa guella, N'essa pestifera anarchia Com quantas lepras uma viella Possa escarrar n'uma enxovia!
As guilhotinas homicidas Pelo carrasco, o fiel criado, Mandam-te o lunch ás escondidas No seu panier ensanguentado,
E o cadafalso, um salteador, Na noite livida estrangula Feras, que arroja no estertor Aos antros podres da tua gulla.
Nada que te encha ou te sufoque. Monstro, absorver é o teu destino. Depois da ceia de Moloch, Ruges co'a fome de Hugolino
Sempre a comer, monstro insensato, E a boca sempre escancarada! O esquife, harpia, eis o teu prato! E o teu talher--a pá e a enxada!
Valla commum, despenhadeiro De lirios brancos e de sapos, Furna onde o Nada, esse trapeiro, Faz o armazem dos seus farrapos.
Quantos heroes--oh raiva, oh odio! Teu lobo amargo apodreceu Desde Aristogiton e Harmodio Até Camões e Galileu!
Deus que te fez sempre esfaimada, Deu-te tambem, pança gigante, Por cosinheiro Torquemada, E Bonaparte por marchante.
Atila e Nero--o tigre e o lobo, Noventa e tres, Saint Barthelemy, Eis hecatombes para o globo Que são banquetes para ti.
Quando famelica te nutres D'um Warterloo, grandiosa prosa, Sustentas todos os abutres Só co'as migalhas da tua mesa!
Para o teu ultimo festim, Gargantua sordido e voraz, Foi aos açougues de Berlim A Morte a encher o seu cabaz.
Es magro e funebre molosso Ha milhões d'annos sempre a uivar: Ó Guerra, traz-me o meu almoço! Ó Peste, traz-me o meu jantar!
Servo, Fellah, Moujik, Escravo, Plebe sem pão, mendigos nús, Bocas que tem ainda o travo Do fel da esponja de Jesus;
Martyres, victimas, proscriptos, Legião de heroes resplandecente, Que ensanguentados e maldictos Revoluteiam febrilmente,
Raios no olhar, grilhões nos pulsos, Ao céo em brasa a fronte erguida, Nos sete circulos convulsos, Do inferno tragico da Vida;
Todo esse exercito ululante Quo em rouco e pavido tropel Vem pela historia humana adiante, Desde Cain até Rossel;
Tudo que estoira de miseria, Tudo o que ruge na oppressão, Desde o grilheta da Siberia Até ao paria do Indostão;
Todo esse barbaro massacre, Da guerra, enorme Leviatan, Zama, Farsalia, S. João d'Acre, Jena, Austerlitz, Sedan;
Todo esse vomito de horrores E do catastrophes sombrias, Profundo atlantico de dores, Negro Himalaia de agonias,
Todo esse lodo Deus impelle-o Ao teu estomago sem dó: És a barriga de Vitellio, Cheia das pustulas de Job!...