Portuguese poem
I
by Abílio Manuel Guerra Junqueiro
O vigario de Deus na terra disse um dia Aos batalhões do clero: Tragam-me o manto d'oiro e seda que cobria As espaduas de Nero.
E trouxeram-lhe o manto, um manto do brocado, Da purpura mais fina, Com escarros de lodo obsceno, inda empastado No sangue de Agripina.
E o papa continuou: «Preciso armar o braço, Para dictar as leis; Fabriquem-me uma espada enorme com o aço Das espadas dos réis.»
E trouxeram-lhe o gladio. O papa ficou mudo, N'um assombro d'espectro. De subito exclamou: «Ainda não é tudo; Tragam-me agora um sceptro!»
Trouxeram-lh'o. E depois d'um silencio profundo Rugiu como um leão: «Tragam-me agora o mundo!» E pozeram-lhe o mundo Na palma da sua mão.
E sopesando o globo e arrancando o montante Enorme da bainha, Bradou pela amplidão: «Sou Jupiter-tonante! Humanidade, és minha!
Eu tenho o gladio e o sceptro, a excomunhão e a bulla; Sou o Deus, sou a Fé. Miseravel reptil, Humanidade, oscula A ponta do meu pé!»
E sentando-se sobre o coração da Italia O satrapa romano Estendeu desdenhoso o bico da sandalia Para o genero humano!