Portuguese poem
De Volta
by Abílio Manuel Guerra Junqueiro
(Crepusculo, Novembro. Pela encosta fria e desnudada vae andando, esfarrapado e exangue, um pobresinho triste, arrimado ao bordão.)
Um Lavrador
(de cem anos, ainda robusto, à porta do casebre)
Mendigo d'olhos sem esp'rança, Vaes-te perder na escuridão... Entra em meu lar; dorme, descança...
O Pobresinho
(andando sempre)
Quem dera a paz divina e mansa, Velho, que tens no coração!...
Uma Velhinha
(a resar à porta do moinho)
Mendigo d'olhos sem ventura, Dentro da azenha ha um enxergão; Terás lençoes, terás fartura...
O Pobresinho
(andando sempre)
Eu só quizera essa candura, Irmã da Graça e da Ilusão!...
Uma Camponeza
(que vem da vindima)
Mendigo d'olhos d'engeitado, Na nossa casa ha vinho e pão; E ha leite fresco; e ha mel doirado...
O Pobresinho
(andando sempre)
Tua alegria sem cuidado, Eis o que eu busco... em vão! em vão!...
Uma Pastorinha
Mendigo d'olhos de coveiro, Trago a merenda no surrão; O queijo é bom, mas é grosseiro...
O Pobresinho
(andando sempre)
Dá-me o teu riso feiticeiro, Lirio do monte inda em botão!
Um Pedinte
Mendigo d'olhos na agonia, Dou-te o meu manto e o meu bordão; Nada mais levo... a noite é fria...
O Pobrezinho
(andando sempre)
Apenas ai! desejaria Tua cristã resignação!...
A Estrella Vesper
Ó sonhador louco d'outrora, Teus sonhos lindos onde estão?! Ebrio da luz, rico d'aurora, Vi-te partir... e vejo agora Um morto erguido d'um caixão!
Teus olhos fulvos namorei-os De dia e noite, da amplidão: Vi-os sorrir entre gorgeios, Vi-os cantar e vi-os cheios De pranto e febre e indignação! Regressa emfim, é teu destino, Á paz obscura, á submissão... E outra vez meigo e pequenino Deixa dormir, como um menino, Teu velho e exhausto coração!...
O Pobresinho
(chorando)
Só tu, estrella, me conheces Em minha dor, minha aflição!... Só tu não dormes, não esqueces... Só tu ouviste as minhas preces... Bemdito, estrella, o teu clarão!
Setembro--91.