Portuguese poem
O meu olhar é nítido como um girassol
by Alberto Caeiro (1888–1935)
O meu olhar é nítido como um girassol, Tenho o costume de andar pelas estradas Olhando para a direita e a esquerda E de vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento É aquilo que nunca antes eu tinha visto, E eu sei dar por isso muito bem... Sei Ter o pasmo essencial que tem uma criança Se ao nascer, reparasse que nasceras deveras...
Sinto-me nascido a cada momento Para a eterna novidade do Mundo
Creio no mundo como um malmequer Porque o vejo, mas não penso nele Porque pensar é não compreender
O mundo não se fez para pensarmos nele (Pensar é estar doente dos olhos) Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...
Eu não tenho filosofia, tenho sentidos... Se falo na natureza não é porque a amo, amo-a por isso, Porque quem ama nunca sabe o que ama. Nem sabe porque ama, nem o que é amar... Amar é a eterna inocência E a única inocência é não pensar.