Versos Portuguese Alfredo Campos I

Portuguese poem

I

by (1847–1906)

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.... se a natureza lhe negára a Corôa, as virtudes lhe deram justiça para a merecer.

CANDIDO LUSITANO--Vida do Infante D. Henrique.

1

Espirito sublime e alevantado, Cheio de crenças, coração formoso, Olhar d'águia, profundo e dilatado, Fictando o sol ardente, corajoso, Sondando o mar, que adora apaixonado, E em que sonha o seu poema grandioso, Deixou seu nome vinculado á Gloria, Escripto em bronze, pela mão da Historia.

2

--Navegador!--Assim o baptisára A fama das conquistas mais brilhantes; Já, dominando o mar, na audacia rara, Para o cortar de estradas rutilantes, Já, implantando a Fé na gente ignára, Em paragens ignotas e distantes, Não, porque da ambição fosse vil presa, Mas para dar á Fé maior grandeza!

3

Varão de largo estudo e são talento, Em vez de braço inerte na indolencia, Nos prazeres da côrte, e luzimento D'uma banal e inutil existencia; Em vez dos galanteios de momento, Que passam, como as nuvens d'uma essencia, Votou a vida, desde a florea edade, Ao trabalho, com honra e lealdade.

4

Foi de Sagres, nos sonhos radiosos, Embalados, do mar, nas harmonias, Quando o mar, nos anceios carinhosos, Ia, meigo, beijar-lhe as penedias, Como para attrahil-o aos gloriosos, Altos projectos de futuros dias, Que concebeu os planos de conquista, Lançando, ao longe, a penetrante vista.

5

Ninguem, como elle, ousára ainda tanto, Abrir caminho certo a essas paragens, Onde a noite é mortal, o sol quebranto, Os habitantes negros e selvagens; Porque ninguem sentira o doce encanto De lograr tão esplendidas miragens; Porque ninguem, como elle, decifrava Os enigmas, que o mar apresentava.

6

Rodeado d'espiritos valentes, Promptos á voz, que vinha d'um desejo, Calando, sempre, em corações ardentes, Cheios de brio, aspiração e pejo, Mal dardejava ás ondas relusentes, Os olhos, no clarão d'algum lampejo, Ao vento desfraldavam, logo, as vélas, Arrojadas, veleiras caravellas!

7

Não eram ambições de vil riqueza, De conquistas, que augmentam poderio, Ou paixão de cubiça, de torpeza, Para satisfazer um desvario, Ou um capricho vão de vã fraqueza, O que o levava á busca do gentio: --Era mais alto e nobre o pensamento, Que o punha firme n'esse ousado intento.

8

Na descoberta de regiões ignotas, Tinha apenas um alvo, que era a Gloria, D'avançar na sciencia das derrotas, Para lograr, sobre outros, tal victoria, Levando a Fé ás tribus mais remotas, Cuja religião era irrisoria; Não por prazer de ter móres dominios Acalentava o Infante estes designios.

9

Tal como o mar, que um dia é bonançoso, Beijando docemente a costa, a praia, E no outro dia é já tempestuoso, Em mortalha mudando a alva cambraia, Da fina espuma do seu dorso airoso, Para melhor colher o que desmaia, Hoje, sereno, amante peregrino, Mau, amanhã, terrivel e tigrino.

10

Assim o espirito do Infante, ás vezes, Calmo sorria ao fim d'alguma empreza, Triumphante de todos os revezes; Mas enchia a sua alma de tristeza Quando a sorte feria os portuguezes, Porque ante a sorte ha força que é fraqueza, E nem sempre volviam gloriosas, Essas expedições audaciosas!