Versos Portuguese Alfredo Campos Ii

Portuguese poem

Ii

by (1847–1906)

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O mysterio que desde a creação estava suspenso sobre o Atlantico, e occultava ao conhecimento do homem metade da superficie do globo, tinha reservado para o Infante D. Henrique, o navegador, um campo de nobres commettimentos.

RICHARD HENRY MAJOR--Vida do Infante D. Henrique.

1

Como um extenso campo, pelo arado Fendido em sulcos para a sementeira, O Atlantico, por elle, foi sulcado, N'uma larga derrota lisongeira, Em que, sempre, um caminho era traçado, De larga via e luminosa esteira, Levando o Infante ás terras procuradas, As naus e as galés afortunadas.

2

Os Açores, Madeira e Porto Santo, Pelo arrojo de Zarco e Tristão Vaz, Surgem formosas, como por encanto, Ao que, por descubril-as, tanto faz. Leva a Ceuta os seus feitos e, no emtanto, Sempre no seu intento firme e audaz, Segue lançando o penetrante olhar, As ondas do attrahente e vasto mar!

3

Diogo Gomes põe as lusas quinas, Em Cabo Verde--essa africana porta --Como se as hasteasse nas campinas, Onde não houve nunca esperança morta. Rasgam-se as nuvens densas de neblinas, Ante o fervor, que o heroismo exhorta, E á bahia d'Arguim o accesso expande A maritima audacia, e ao Rio Grande!

4

Desvenda-se esse Mar, que Tenebroso, Toda a coragem transformava em medo, Como rendido ao susto perigoso, Quem quer sondar o abysmo d'um segredo; E esse campo de vagas, mysterioso, Tão tido por feroz, insano e tredo, Deixa de ser phantastica voragem, Para prestar aos lusos vassalagem!

5

Levado na corrente caudalosa, Que os animos inspira com ardor, Dobra, n'uma derrota gloriosa, Gil Eannes, o Cabo Bajador; E essa tarefa rude e trabalhosa, Que ao Infante traz mais um esplendor, Novo florão engasta em seu diadema, Nova estrophe nos cantos do seu poema!

6

Andavam cavalleiros, moços, pagens, Entre si, disputando a primasia, De derrotas incertas, de viagens, Tidas por mais difficeis, dia a dia, Buscando, cada qual, novas paragens, Consoante as pintava a phantasia; E foi assim, que, com fervor e fé, Chegaram a Benim, Congo e Guiné!

7

Vencem os seus o Cabo das Tormentas, Que foi, depois, Cabo da Boa Esperança, Não sem luctas e luctas violentas, Em que o trabalho mais renome alcança; Não sem rudezas grandes e cruentas, Dessas que a fama em seus laureis entrança, E coube ao Duque de Vizeu a Gloria, Dessa arrojada empreza meritoria.

8

Levanta em Sagres a grandiosa Escóla, Onde a navegação acha elemento, Para as expedições, que desenrola, Em busca de qualquer descubrimento, Quando uma frota sua o mar assola, Ou uma nau se expõe ao mar e ao vento, Escóla, que assombrava o mundo inteiro, E em que, no estudo, o Infante era o primeiro!

9

Se pelo mar conquista tanta fama, E o seu nome circumda glorioso, Das joias das acções que lá derrama, Como navegador audacioso, Tambem como homem d'armas se proclama Disciplinado, firme e valoroso, Como se fôra feito para a lucta, Quem, pela Patria, a Gloria só disputa.

10

Nos mares, onde tantas caravellas, Rasgaram horisontes dilatados, Sem receio da furia das procellas, Nesses longinquos portos ignorados, Onde as galés molharam suas velas, Levando a Cruz e a Fé aos seus povoados, Andam, inda, hoje, vivas, por memoria, Do grande Heroe, as tradições de Gloria!

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