Portuguese poem
Iii
by Alfredo Campos (1847–1906)
A fama, a gloria, o nome, e a saudade. ............................. Oh! ditoso morrer! Sorte ditosa!
CAMÕES--Sonetos.
1
Póde o tempo esquecer, por largos annos, Os feitos d'um Heroe, acções d'um povo, Quando o tempo resolve em seus arcanos, O consagrar algum Heroe mais novo, Ou commentar cruezas de tyrannos, Pois cada tronco tem o seu renovo; Mas desse olvido ha de surgir, um dia, O tempo que esses feitos esquecia.
2
Revive, assim, a grandiosa Gloria Do compendio da vida d'esse Infante, Que enche de brilho as paginas da Historia, N'uma lição famosa e fecundante; E nesse consagrar tanta victoria, Nesse avivar exemplo tão gigante, Cumpre um dever o povo que pretende, Que é pela Historia que se instrue e aprende.
3
Filho de Reis, podia, na grandeza, Trazer a vida, e em ocios, regalada; Preferiu, da Sciencia, a realeza, Porque era d'ella uma alma enamorada, Levando, em protegel-a, a gentileza De, em seus Paços, a ver bem hospedada, Que eram de illustres Sabios, grande gremio, Sabios, que honrava e a quem dava premio.
4
Pelo seu coração foi mui piedoso, Varão d'inteira Fé, de firme Crença, Erguendo muito monumento honroso, Que a tradição, agora, ainda incensa, Como para attestar o caloroso, Real valor d'essa piedade immensa, De quem tinha, por si, segura a regra, Que sem religião a vida é negra.
5
Affavel, terno, todo castidade, Abria o seio ás afflicções dos pobres, Que consolava ao sol da caridade, Mudando em oiro a falta dos seus cobres, Nos extremos do affecto e da bondade, Taes como os dispensava aos ricos nobres, Chegando, por impulsos desvelados A ser chamado até--Pai dos Soldados!
6
Protector dos estudos, contribuia, Com larga renda e generosa offerta, Para pôr a instrucção em pleno dia, Nos proprios Paços seus, fulgindo certa, Como mãi do Progresso, que antevia, E fonte de ventura, em jorro aberta; Pois se do mar, das armas era amante, Punha nas Lettras um amor constante.
7
Talent de bien faire era o seu lemma: --De fazer bem, vontade sempre ardente, E nessa ancia do bem, viva e suprema, Exemplo sublimado a toda a gente, Talhou o maior canto do seu poema; É raro achar brazão mais resplendente, Como egualmente o é, entre a nobreza, Mais virtude, mais Gloria, mais grandeza!
8
Foi-lhe a vida sublime uma epopeia! Heroe, que faz Heroes pelo traslado, Dos dons com que seus dias encadeia, Só pelo Patrio amor, sempre inspirado! Dá flôr e fructo o exemplo que semeia, Fertil foi sempre o campo que ha lavrado, E dessa enorme e estranha sementeira, Inda, hoje, ha grão ao sol da nossa eira!
9
Quando morreu, coberto foi de pranto, Do povo, que o seu nome idolatrava; Foi tecido de lagrimas o manto, A mortalha, que ao tumulo levava! Diziam todos que morrêra um santo! Dizia o proprio mar que... orphão ficava! Chorava, assim, uma nação inteira, Como que a sua esperança derradeira!
10
Um povo, que acalenta o seu presente, Ao sol das tradições do seu passado, Levanta, agora, um monumento ingente, Ao seu Navegador afortunado, Na aspiração da Gloria resplendente, Porque o que é grande é mister ser lembrado. Aprenda bem o povo a lêr na Historia, E Deus o inspire para maior Gloria.