Portuguese poem
As pêgas de Cintra
POR BEM,
AS PÊGAS DE CINTRA.
Gavião, gavião branco Vai ferido e vai voando; Mas não diz quem n'o feriu, Gavião, gavião branco!
O gavião é callado, Vai ferido e vai voando; Assim fôra a negra pêga Que hade sempre andar palrando.
A pêga é negra e palreira, O que sabe vai contando... Muito palra, palra a pêga Que sempre hade estar palrando.
Mas quer Deus que os chocalheiros Guardem ás vezes, fallando, O segredo dos sisudos Que elles não guardam callando.
Era uma pêga no paço Que el-rei tomára, caçando; Trazem-n'a as damas mimosa Com a estar sempre afagando.
Nos paços era de Cintra Onde estava el-rei poisando; A rainha e suas damas No jardim andam folgando,
Entre assucenas e rosas, Entre os goivos trebelhando; Umas regavam as flôres, Outras as vão apanhando;
E a minha pêga com ellas Sempre, sempre palreando. Vinha el-rei atraz de todos Com Dona Mécia fallando.
Era a mais formosa dama Que andava n'aquele bando; No hombro de Dona Mécia, A pêga vinha poisando.
E zelosa aprecia Que os andava espreitando... Colhêra el-rei uma rosa, A dona Mécia a ia dando
Com um requêbro nos olhos Tão namorado e tam brando... Inda bem, minha rainha, Que adeante te vais andando!
Pegou na rosa a donzella, Disfarçada a está cheirando... Senão quando a negra pêga Que lh'a tira e vai voando.
Deu um grito Dona Mécia... E a rainha, voltando, Deu com olhos em ambos... Ambos se estão delatando.
— ‘Foi por bem!’ lhe disse o rei, Seu accôrdo recobrando: — ‘Foi por bem!’ — ‘Por bem!’ repete A pêga emtôrno voando.
— ‘Por bem, por bem!’ grasna a tonta, De má malicia cuidando Co'a chocalheira da lingua Andar o caso inredando.
Mas quer Deus que os chocalheiros Guardem ás vezes fallando O segredo dos sisudos Que elles não guardam callando.
Riu-se a rainha da pêga, E ficou acreditando Que a innocencia do caso N'ella se estava provando.
Da pêga mexeriqueira, Do bem que fez, mal pensando, Nos reaes paços de Cintra A memoria está durando.
E eis-aqui, senhora, a historia Da pêga que ahi ves palrando, Da rosa que tem no bico, Da lettra que a está cercando.
A pêga é negra palreira, O que sabe vai contando: Mas quer Deus que os chocalheiros Guardem segredo fallando.
O gavião, esse é outro; Vai ferido e vai voando; Mas não diz quem n'o feriu... Gavião, gavião branco!