Portuguese poem
O Álbum
Minha Júlia, um conselho de amigo; Deixa em branco este livro gentil: Uma só das memórias da vida Vale a pena guardar, entre mil.
E essa n'alma em silêncio gravada Pelas mãos do mistério há-de ser; Que não tem língua humana palavras, Não tem letra que a possa escrever.
Por mais belo e variado que seja De uma vida o tecido matiz , Um só fio da tela bordada, Um só fio há-de ser o feliz.
Tudo o mais é ilusão, é mentira, Brilho falso que um tempo seduz, Que se apaga, que morre, que é nada Quando o sol verdadeiro reluz.
De que serve guardar monumentos Dos enganos que a esp'rança forjou? Vãos reflexos de um sol que tardava Ou vãs sombras de um sol que passou!
Crê-me, Júlia: mil vezes na vida Eu coa minha ventura sonhei; E uma só, dentre tantas, o juro, Uma só com verdade a encontrei.
Essa entrou-me pela alma tão firme, Tão segura por dentro a fechou, Que o passado fugiu da memória, Do porvir nem desejo ficou.
Toma pois, Júlia bela, o conselho: Deixa em branco este livro gentil, Que as memórias da vida são nada, E uma só se conserva entre mil.