Portuguese poem
A Cabeça de Corvo
Na mesa, quando em meio à noite lenta Escrevo antes que o sono me adormeça, Tenho o negro tinteiro que a cabeça De um corvo representa.
A contemplá-lo mudamente fico E numa dor atroz mais me concentro: E entreabrindo-lhe o grande e fi no bico, Meto-lhe a pena pela goela a dentro.
E solitariamente, pouco a pouco, Do bojo tiro a pena, rasa em tinta... E a minha mão, que treme toda, pinta Versos próprios de um louco.
E o aberto olhar vidrado da funesta Ave que representa o meu tinteiro, Vai-me seguindo a mão, que corre lesta. Toda a tremer pelo papel inteiro.
Dizem-me todos que atirar eu devo Trevas em fora este agoirento corvo, Pois dele sangra o desespero torvo Destes versos que escrevo.