Versos Portuguese Angelina Vidal Iii

Portuguese poem

Iii

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Que borburinho é esse? O Porto anda revolto? Que foi que se passou? Como é que invade a praça o povo irado e solto, Se tanto laborou El-rei, por tel-o em bens e liberdade envolto?

Se ha tanto beneficio, exforços tão visiveis Em prol da causa publica, Como podem brotar reprovações sensiveis, Como é que a ideia nublica Não acha na Rasão um dique d'impossiveis?

«O povo é desgraçado,» affirma a humana Historia, «Mataram-lhe o Direito, «E forçara-n'o a seguir a negra sorte ingloria, «Calado, contrafeito, «Pagando sem gosar, tecendo a alheia gloria!»

Um dia, de repente, ergueu-se a reclamar; A ignara populaça. O monopolio rouba-a, era mister luctar! E logo, a plebea raça Reclama valorosa, em vez de supplicar.

Mas o ministro excelso havia já disposto Das cousas do alto-Douro; Vivesse embora a Patria em noute de desgosto. Os cofres tinham ouro... Que importa se a Rasão traz lagrimas no rosto?

Por isso se indignou o esteio da Realesa, E os raios da vingança Fabrica muito á pressa, e envia com prestesa Á popular esp'rança Fundada na intuição das leis da Naturesa.

E após, hórrido insulto á crença humanitaria! Por um delicto falso Estende-se no Porto a rede sanguinaria, E o torpe cadafalso Arranca friamente a vida ao triste paria!

Creanças sem vigor, rojadas sobre a rua, Forçaram-se a seguir O sacrificio immano, onde o valor recua, E a ver a mãe subir A via da amargura, e escarnecida e nua!

E um homem venerando, um martyr impolluto Que a Consciencia chora, O bom Juiz do Povo, um bravo resoluto, Sereno como a aurora, Lá foi tambem lançado á morte, ao chão do lucto!

O que ha que justifique o horror de taes supplicios? Que espirito medonho, Não treme ao ver a morte, açoutes, e os exicios? Não julga quasi um sonho Que um homem só, profunde infindos precipicios?

Quem ha que não palpite em plena indignação Olhando um nobre velho Manchado pela affronta, exposto á impia acção. Pondo um lastro vermelho, Na terra onde semeia a intima afflicção.

Quem ha que não suspire, ao ver a mulher casta, Violada em seu pudor, Pendida n'uma forca, e desnudada, e gasta Nas ancias do terror, Maldita pelo algoz, que á sepultura a arrasta?

Se o Homem fôra um monstro, um tigre em sangue absorto, Comquanto fôra filho, Havia de exprobar ao potentado morto O mortuario trilho Que abriu com turvo affan no coração de Porto!

Se a Mãe fosse mais fera ainda que a leôa, Comquanto fosse Mãe, Havia de olvidar o astro de Lisboa, Para escutar além, O brado perennal que pólo a pólo sôa!

Ahi tens, ó Povo Luso, o heroe que agora incensas; Proclama-o democrata! Mas pesa-lhe a injustiça, os odios, e as sentenças E dize se arrebata Um nome que traduz as mais crueis offensas! ............................................

E o titan que esmagava assim, rude e febril, Os braços da nação, os braços productores, Os ferros destruia ao escravo no Brasil, E baixava ao commercio os olhos protectores!

Infando laborar! Contradicção tamanha, Que põe n'um ser vidente um tumultuoso abysmo, E nos traz á memoria a flórida montanha Que engendra no seu flanco o igneo paroxismo!

Homem! Dizes-te o ser Supremo do Universo Quando és synthese só das leis da creação! És tu quem dás a luz, e estás na sombra immerso, Proclamas o Progresso, e dás a Destruição!

Exhaures toda a força em busca da Verdade, Penetras com valor nos seculos remotos, E quando julgas ver a eterna claridade Surge-te frente a frente um turbilhão d'ignotos!

Que vezes a inconsciencia ao Genio se avantaja! Que infrene marulhar na logica dos factos! E quando a Aspiração em nuvens de ouro viaja, Ha de chegar emfim aos desenganos latos.

Buscae por toda a esphera a perfeição preclara; O Sol vigora a planta, o Sol requeima o fructo; A chuva banha o solo, a chuva innunda a ceara, A Gloria cria a Fama, a Gloria tece o lucto!

A Ideia rasga a entranha á mãe commum, á Terra, E tira-lhe do ser, minerio, luz, sustento; Mas rola sobre o campo o carro eril da Guerra, E põe um muro espesso em face ao Pensamento.

Os cyclos do passado, erguendo o reposteiro, Mostram em toda a linha o Bem e a Crueldade; E o Homem preso á rocha, é destructor e obreiro Que agora incensa á treva, e logo á Liberdade!

Nos dramas do Universo ha sempre imitações O fado é perennal, a fórma é transitoria; Cada época produz idoneas mutações E ha pontos de contacto a escurecer a Historia.

Se um dia a raça humana attinge os lisos portos De seus nobres ideaes, então, forte e sublime, Escalpellando á luz, heroes, fetiches mortos, Ver-lhe-ha nos corações crescer a flor do crime.

E então, em vez de honrar ministros, generaes, Em vez de pôr n'um templo os grandes assassinos, Dará seu preito eterno ás leis universaes, E á Sciencia e Liberdade os mais sonoros hymnos!