Portuguese poem
Vi
O marquez de Pombal, producto do seu meio, Trazia na Consciencia o salutar anceio Das santas cousas bellas. Mas um facto mental, o facto do attavismo, Acorrentava-o sempre ao velho despotismo Dos thronos e das cellas.
A corrente soprada além, da heroica França, Fazia-lhe pulsar a magestosa esp'rança Das creações mais caras; Porém n'esse combate imigo do Direito, Cedia tristemente á voz do Preconceito, E ás perversões ignaras.
Demonstra-o fartamente o proceder confuso Com que arrojava ao Povo um turbilhão diffuso De mortes e afflicção, Curando juntamente, e com visivel gloria, De lhe aplainar a rude e fria trajectoria, Por meio da instrucção.
Affirma-o sem rodeio o manifesto empenho Com que guerreou Bocage, o sublimado engenho Do seculo passado, Por seus bellos ideaes, modernos e atheistas, Expostos com vigor, e com profundas vistas De um espirito avançado.
Comprova-o a friesa usada com Fylinto Que longe do seu ninho, o doce riso extincto, Chorava, em lyra de ouro, As ruinas da ventura, o azul do patrio lar, As aguas do Mondego, e as vibrações do luar Entre os jasmins e o louro.
A ethopéa social dos seculos transactos, Reflecte-se e vigora em seus funestos actos. Fluctua sem cessar seu espirito viril, Que ora se eleva ao bello, ora se entrega ao vil. Mas n'elle transparece uma tendencia rude Que punge a leal Virtude!
A statica mental aperta-a pelos pulsos; E a dynamica então imprime-lhe os impulsos Da progressiva lida; E assim n'este vaivém lhe corre toda a vida.
Porém quando abordou á estancia derradeira Deixava atraz de si a sanguinosa esteira, Onde o espectro do pobre, e justo, e velho, e creança Reclamam com vigor criterio e segurança Ao tribunal da Historia, onde serão julgados Os sabios, os heroes, os reis e os scelerados. .............................................. Tenho attacado o clero, aspiro á excelsa luz, Detesto o ignobil lenho, e sinto por Jesus O affecto que daria a irmão, se irmão tivera, Venero o positivo, e nunca a van chimera.
Meus filhos, castos soes, o meu thesouro immenso, Por quem me sinto grande, a quem adoro e incenso, As heras infantis que enleio na Consciencia, A força que me impelle á lucta da inclemencia Que aqui, n'este paiz de cousas pequeninas Odeia a quem cultiva as rosas christalinas No coração do Bem, Progresso e Liberdade, Seguem a religião do Justo e da Verdade, É a sua crença ideal, Resume-se no amor do seu sentir filial.
Mas tendo a mente forte e despresando os idolos, E combatendo firme os monumentos frivolos, Politico-sociaes, Revoltam-me a Consciencia os actos tão brutaes Da vida do marquez, E vejo com tristesa o nome portuguez Coberto pelo horror, Quando podia ser um foco de explendor.
A queda do jesuita é justa, é rasoavel; Expulsa essa barreira imiga insuperavel, Podia a sociedade erguer-se da ignorancia, Dormir em paz a Mãe, sorrir a loura infancia Ao Pensamento novo, a santa aspiração!
É digno de louvor quebrar á inquisição Os braços da vingança a ira da torpesa.
Mas cobrem-se de lucto as leis da Naturesa, Mas ouve-se um protesto, a palpitar fremente, Ao ver, cheio de affronta, um martyr impotente, Rojado pelo chão, manchado pela lama! E pelas nações clama A Ideia humanitaria, amena, e justiceira, Vendo arrojar um ente á estupida fogueira!
E embora fosse um padre, embora um jesuita, Embora fosse irmão da raça atroz, precita, A minha voz sentida Protesta contra a morte imposta a Malagrida! Protesto! E emquanto houver Um coração de luz em peito de mulher, Meu brado ha de correr nos angulos do mundo, E em todo o mar fecundo!