Portuguese poem
Semana da Paixão
Senhora, vós sois mãe; em vossa alma extremosa Ha paginas da biblia eternamente santa, Escriptas pelo Amor n'uma intenção grandiosa Que o nome de MULHER sobre um altar levanta.
Senhora! Vós sois mãe... e eu, que tambem o sou, As magoas de outras mães aqui chorando estou.
A minha triste voz, dolente assim qual é, Não vem a murmurar premissas de má fé, Nem como um mendicante expõe chagas ficticias A fim de recolher offertas mais propicias,
Mas simplesmente diz:
— Senhora de Bondade
São victimas sem culpa as ovelhinhas puras, Que exgotam, a chorar, um calix de amarguras, Amaryllis de amor, que a neve hoje amortalha; São pedaços de vida, a quem, feroz, retalha O braço fulminante, o braço disciplina. Com musculos da Lei, e nervos da rotina.
Eu fui bater, Senhora, a esses corações E ouvi a romaria, enorme, de afflicções Que a Saudade conduz por lacrimosos mares, E a duvida acorrenta á gleba dos pezares.
Eu vi... eu vi de pé a torre da agonia, E o sineiro da morte, ao declinar do dia Vibrar hereuleamente o funerario dobre! Eu vi o que só vê quem ama, e quem descobre No espirito que soffre, um pouco do seu segon E assimilei, magoada, a dór que vos entrego, Para que a demudeis em fonte de carinhos Onde possam beber creanças e velhinhos; Onder possa banhar-se a duvida remissa, E onde vá reflectir-se a alma da Justiça.
Que a Justiça não é um Attila iracundo, Que ponha a escorrer sangue o coração do mundo!
Foi um drama de febre, um lamentavel drama Que a ignorancia causou, e compaixão reclama. Demais, ninguem oppôz prophylaxias cautas, Para salvar do abysmo os miserandos nautas.
Se lhes houvessem posto um facho assás visivel No arsenal da instrucção... era evidente e crivel, Que teriam ouvido a ameaça de destroços Ao soltarem a amarra em ares muito grossos. Mas largaram sem rumo... Iam de pannos largos Aos ventos de um acaso; e breve, quão amargos Acharam na derrota os devaneios louens! O barometro foi baixando, logo, aos poucos... O céo fez-se de tinta, a tinta côr da magua, A barea afocinhou... metteu as perchas na agua... Cerrou-se o nevoeiro... Onde is então a proa? Não governou o leme e o barco foi-se à tôa!...
Depois... era o naufragio... e emfim não sei que fique Quando o dever sossobra e a crença vae a pique.
― Bem pouco se perdeu ― dirá gente sem alma; Mas a consciencia humana, intemerata e calma, Dirá isto, sómente: Os homens são irmãos, Quando algum resvalou, cumpre estender-lhe as mãos.
E vós, Senhora, e vós, que sois compadecida, Haveis de ouvir chorar a alma dolorida Da Terra Portugueza, a Terra dos proscriptos, Terra que o Sol vestiu com osculos bemditos: A Terra onde germina a luz dos corações Que se chamaram Gama, ou Egas, ou Camões.
A esfarrapar um nome, a ensanguentar um sonho, Veja quem sabe vêr.. pugnaz ou enfadonho, Zoilo, que não dispensa o seu parceiro Efialto, Embosca-se na insidia e arroja-se de salto!
Bem sabe elle que é falso o seu charlar cruel, Mas Zoilo ou não tem alma, ou é de cascavel!...
Já Ovidio dizia: ― «A fórma é transitoria.» E em cada cyclo o affirma a Natureza e a Historia.
E quanta, oh! quanta vez, quem préga taes officios Transije com o ouro e com seus proprios vicios.. E quanta, qnanta vez, a intransigencia cega De Diomedes a lei no seu proveito emprega!...
Ser firme é ser brioso e não dobrar o joelho Á voz do fanatismo, ou funebre ou vermelho. Ser forte é percorrer, de consciencia pura, Zodiacos da Dôr nos mundos da Amargura.
Senhora! eu venho agora, e respeitosa insisto Porque diviso, além, o Mestre, o Amor, o Christo, Na hora da agonia, o olhar brando e sublime, Baixando tão piedoso a resgatar o crime Da fera ingratidão que o martellou na Cruz,
E o ouyo suspirar:
Todo o perdão é luz!
E Gorki não morreu no ignobil cadafalso, Porque o senso commum não deu rebate falso Nem quiz passar além das raias do provavel...
Por mim, que nada valho, entendo que é louvavel N'um pensamento bom de paz e de concordia Pedir a protecção, pedir misericordia Para quem soffre, longe, a expiação de um erro, Para quem, perto, soffre o espiritual desterro.
Podera eu redimir delictos e miserias, Constellar de esperança essas regiões funereas Onde ha perpetuamente as tragicas risadas Do desespero hostil, das vidas condemnadas; Podera eu resgatar a triste humanidade Dobrando o meu joelho aos pés da Magestade... E não hesitaria um só momento, um só!...
E viesse quem viesse a escarnecer, com dó, Ditosa me julgava, emfim, antes da morte. Bem dona do meu «eu», serenamente forte, Eu seria maior que toda a intransigencia... Que eu nunca lhe enfeudei a minha independencia, Nem puz uma etiqueta ás crenças da minh'alma! Podera eu demudar o odio em 'brando arrulho, E o espirito de Luz me cingiria a palma, Porque o supremo heroismo é dominar o orgulho.
·
Romaria da vida... a peor das romarias! Apenas amanhece é logo: ― Parte! Parte! Por bom, por mau caminho.. embora! has de affastar-te Da aurora do teu berço, ó alma que dormias!
Ou caia o sol a prumo, ou nos brumosos dias, ― Romeiro, segue, segue! A Dôr anda a chamar-te Nas miragens da Gloria, e o Sentimento a dar-te As lagrimas do Sonho, aos ais de Ave-Marias...
― Pára... enxuga o suor... já estão ardendo os cirios... Mas dize: em que empregaste a cerebrina acção?... Foi na Arte?... Na Sciencia?... Em bellicos delirios?
Bemdito o «Agnus-Dei» que responder então: ― Os maus foram-me hostis, e eu, a sangrar martyrios, Regnei com o meu pranto a ceara do perdão .