Versos Portuguese Antero de Quental Ii

Portuguese poem

Ii

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N'um céo intemerato e crystallino Póde habitar talvez um Deus distante, Vendo passar em sonho cambiante O Ser, como espectaculo divino.

Mas o homem, na terra onde o destino O lançou, vive e agita-se incessante: Enche o ar da terra o seu pulmão possante... Cá da terra blasphema ou ergue um hymno...

A idea encarna em peitos que palpitam: O seu pulsar são chamas que crepitam, Paixões ardentes como vivos soes!

Combatei pois na terra arida e bruta, Té que a revolva o remoinhar da lucta, Té que a fecunde o sangue dos heroes!

Justitia Mater

Nas florestas solemnes ha o culto Da eterna, intima força primitiva: Na serra, o grito audaz da alma captiva, Do coração, em seu combate inulto:

No espaço constellado passa o vulto Do innominado Alguem, que os soes aviva: No mar ouve-se a voz grave e afflictiva D'um deus que lucta, poderoso e inculto.

Mas nas negras cidades, onde sôlta Se ergue, de sangue medida, a revolta, Como incendio que um vento bravo atiça,

Ha mais alta missão, mais alta gloria: O combater, á grande luz da historia, Os combates eternos da Justiça!

Palavras d'um certo Morto

Ha mil annos, e mais, que aqui estou morto, Posto sobre um rochedo, á chuva e ao vento: Não ha como eu espectro macilento, Nem mais disforme que eu nenhum aborto...

Só o espirito vive: vela absorto N'um fixo, inexoravel pensamento: «Morto, enterrado em vida!» o meu tormento É isto só... do resto não me importo...

Que vivi sei-o eu bem... mas foi um dia, Um dia só--no outro, a Idolatria Deu-me um altar e um culto... ai! adoraram-me.

Como se eu fosse alguem! como se a Vida Podesse ser alguem!--logo em seguida Disseram que era um Deus... e amortalharam-me!