Versos Portuguese Antero de Quental Pantheismo

Portuguese poem

Pantheismo

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I

Foi feito para vêr o brilho e belleza... E se ruge, é que a agita surdamente Tua alma turva, ó grande natureza!

Sim no rugido ha uma vida ardente Uma energia intima, tão santa Como a que faz trinar a ave innocente...

Ha um desejo intenso, que alevanta Ao mesmo tempo o coração ferino, E o do ingenno cantor que nos encanta...

Impulso universal! forte e divino Aonde quer que irrompa! e bello e augusto, Quer se equilibre em paz no mudo hymno

Dos astros immortaes, quer no robusto Seio do mar tumultuando brado, Com um furor que se domina a custo;

Quer durma na fatal obscuridade Da massa inerte, quer na mente humana Sereno ascenda á luz da liberdade...

É sempre a eterna vida, que dimana Do centro universal, do fóco intenso, Que ora brilha sem véos, ora se empana...

É sempre o eterno germen, que suspenso No oceano do Ser, em turbilhões De ardor e luz, evolve, infimo e immenso!

Através de mil fórmas, mil visões, O universal espirito palpita Subindo na espiral das creações!

Ó formas! vidas! mysteriosa escripta Do poema indecifravel que na Terra Faz de sombras e luz a Alma infinita!

Surgi, por céo, por mar, por valle e serra! Rolai, ondas sem praia, confundindo A paz eterna com a eterna guerra!

Rasgando o seio immenso, ide sahindo Do fundo tenebroso do Possivel, Onde as fórmas do Ser se estão fundindo...

Abre teu calix, rosa immareessivel! Rocha, deixa banhar-te a onda clara! Ergue tu, aguia, o vôo inaccessivel!

Ide! crescei sem medo! não é avára A alma eterna que em vós anda e palpita... Onda, que vai e vem e nunca pára!

Em toda a fórma o Espirito se agita! O immovel é um deus, que está sonhando Com não sei que visão vaga, infinita...

Semeador de mundos, vai andando E a cada passo uma seara basta De vidas sob os pés lhe vem brotando!

Essencia tenebrosa e pura... casta E todavia ardente... eterno alento! Teu sopro é que fecunda a esphera vasta... Choras na voz do mar... cantas no vento...

II

Eil-o o Ancião-dos-dias! eil-o, o Santo, Que já na solidão passava orando, Quando inda o mundo era negrume e espanto!

Quando as fórmas o orbe tenteando Mal se sustinha e, incerto se inclinava Para o lado do abysmo, vacillando;

Quando a Força, indecisa, se enroscava Ás espiraes do Cháos, longamente, Da confusão primeira ainda escrava;

Já elle era então livre! e rijamente Sacudia o Universo, que acordasse... Já dominava o espaço, omnipotente!

Elle viu o Principio. A quanto nasce Sabe o segredo, o germen mysterioso. Encarou o Inconsciente face a face, Quando a Luz fecundou o Tenebroso.

III

Surgir! ser astro e flôr! onda e granito! Luz e sombra! attracção e pensamento! Um mesmo nome em tudo está escripto– Eis quanto me ensinou a voz do vento.