Portuguese poem
O Romance Da Pastora Linda
by António Joaquim de Castro Feijó (1859–1917)
A linda Pastora, guardando o seu gado, Andava esquecida num alto montado.
E o Rei, que voltava, sombrio, da caça, Com seus falcoeiros e galgos de raça,
Detem-se, pensando, de subito, ao vê-la, Em ermo tão alto, que fôsse uma estrella.
--«Oh linda Pastora dos olhos castanhos, Que passas a vida guardando rebanhos!
A tua belleza deslumbra os meus olhos, Como uma tulípa no meio de abrolhos.
Teus labios parecem cerejas vermelhas, E a pelle é mais fina que a lã das ovelhas.
Sobre o oiro das tranças, tuas faces tão puras São duas papoilas em searas maduras.
Estrella ou Pastora, se queres ser minha, Terás as riquezas que tem a Rainha!»
--«A flôr dos vallados é sempre modesta E a humilde zagalla presume de honesta.»
--«Terás equipagens, palacios, castellos, E joias a arderem nos fulvos cabellos;
Um throno de esmaltes em oiros massiços, Lacaios, escravos, fidalgos submissos!...»
--«Ás vossas riquezas, perdidas nos montes, Prefiro mirar-me no espelho das fontes;
As joias, que valem, se eu guardo o meu gado, Com rubras papoilas a arder no toucado?...
De nada me servem fidalgos, escravos, Pois tenho as abelhas e o mel dos meus favos.
Segui vosso rumo, que a tarde caminha; Guardae as riquezas que são da Rainha».
--«Não rias, vaidosa, das minhas promessas, Que a forca tem visto mais lindas cabeças...»
--«Talvez que mais lindas já visse pender, Mas nunca tão firme nenhuma ha-de ver,
Que a Virgem Santissima, a Virgem clemente, Ampara, sorrindo, quem morre innocente,
E os anjos, descendo do ceu a voar, Á forca viriam minh'alma buscar!»
E a linda Pastora, que a ser ultrajada A morte prefere,--vae ser enforcada!
Levaram-na, á força, das suas ovelhas, Pendendo-lhe ás tranças papoilas vermelhas,
Com gritos de escarneo, no meio da turba... Mas nada os seus olhos serenos perturba.
E toda inundada na luz que irradia, Sorrindo, os estrados da forca subia...
Então, n'um relance, do azul transparente, Surgindo mais alvas que a lua nascente,
Duas pombas que descem e voam a par, Nos braços da forca vieram poisar...
E a linda Pastora dos olhos castanhos, Tão longe da serra, cercada de estranhos,
Sem ter um gemido, sem ter um lamento, Expira na forca... Mas n'esse momento,
No grande silencio que a morte causara, Aos olhos de todos que attonitos viram Tão grande prodigio, coragem tão rara, Dos braços da forca--três pombas partiram!