Versos Portuguese António Pereira Nobre 16 (Ó fogueiras, ó cantigas)

Portuguese poem

16 (Ó fogueiras, ó cantigas)

by (1867–1900)

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Ó fogueiras, ó cantigas, Saudades! recordações! Bailae, bailae, raparigas! Batei, batei, corações!

Coimbra, 1890.

*Luzitania no Bairro-Latino*

Só! Ai do Luziada, coitado, Que não tem mãe, nem tem avó, Que não ama, nem é amado... Nuzinho Outomno, no mez d'Abril! Que triste foi o seu fado! Antes fosse p'ra soldado, Antes fosse p'ro Brazil...

Menino e moço, tive uma Torre de leite, Torre sem par! Oliveiras que davam azeite, Searas que davam linho de fiar, Moinhos de velas, como latinas, Que S. Silvestre fazia andar... Formozas cabras, muito pequeninas, Loiras vaquinhas de maternas ancas Que me davam o leite de manhã, Lindo rebanho de ovelhinhas brancas; Meus bibes eram da sua lã...

Antonio era o pastor d'esse rebanho: Com ellas ia para os montes, a pastar. E tinha pouco mais ou menos seu tamanho, E o pasto d'ellas era o meu jantar... E a serra a toalha, o covilhete e a sala. Passava a noite, passava o dia Com essas boas irmãzinhas A quem só mingoava a falla Para serem perfeitas criaturinhas... E quando na Igreja das Alvas Saudades Que era da minha Torre a freguezia, Batiam as Trindades, Com os seus olhos christianissimos olhavam-me, Eu persignava-me, rezava Ave-Maria... E as doces ovelhinhas imitavam-me.

Menino e moço, tive uma Torre de leite, Torre sem par! Oliveiras que davam azeite... Um dia, os castellos cairam do Ar!

As oliveiras seccaram, Morreram as vaccas, perdi as ovelhas, Sairam-me os ladrões, só me deixaram As velas do moinho... mas rôtas e velhas!

Que triste fado! Antes fosse aleijadinho, Antes doido, antes cego...

Ai do Luziada, coitado!

Veio da terra, mail-o seu moinho: Lá, faziam-no andar as agoas do Mondego, Hoje, fazem-no andar agoas do Sena... É negra a sua farinha! Orae por elle! tende pena! Pobre Moleiro da Saudade... Ó minha Terra encantada, cheia de sol, Ó campanarios, ó luas cheias, Lavadeira que lavas o lençol, Ermidas, sinos das aldeias, Ó ceifeira que cegas cantando, Ó moleiro das estradas, Carros de bois, chiando... Flores dos campos, beiços de fadas, Poentes de Julho, poentes mineraes, Ó choupos, ó luar, ó regas de verão!

Que é feito de vocês? Onde estaes, onde estaes?

Ó padeirinhas a amassar o pão, Velhinhas na roca a fiar, Cabello todo em caracoes! Pescadores a pescar Com a linha cheia de anzoes! Zumbidos das vespas, ferrões das abelhas, Ó bandeiras! ó sol! foguetes! ó toirada! Ó boi negro entre as capas vermelhas! Ó pregões d'agoa fresca e limonada! Ó romaria do Senhor do Viandante! Procissões com muzica e anjinhos! Srs. Abbades d'Amarante, Com trez ninhadas de sobrinhos!

Onde estaes? onde estaes?

Ó minha capa de estudante, ás ventanias! Cidade triste agazalhada entre choupaes! Ó dobres dos poentes, ás Ave-Marias! Ó Cabo do Mundo! Moreira da Maia! Estrada de S. Thiago! Sete-Estrello! Cazas dos pobres que o luar, á noite, caia... Fortalezas de Lipp! ó fosso do Castello, Amortalhado em perrexil e trepadeiras, Onde se enroscam como espozos as lagartas! Sr. Governador a podar as rozeiras! Ó Bruxa do Padre, que botas as cartas! Joaquim da Thereza! Francisco da Hora!

Que é feito de vós? Fallaveis aos barcos que andavam, la fora, Pelo porta-voz... Arrabalde, maritimo da França, Conta-me a historia da Princeza Magalona, E do Senhor de Calais, Mais o naufragio do vapor Perseverança, Cujos cadaveres ainda vejo á tona... Ó pharolim da Barra, lindo, de bandeiras, Para os vapores a fazer signaes! Verdes, vermelhas, azues, brancas, extrangeiras, Diccionario magnifico de cores! Alvas espumas, espumando a fragua, Ou rebentando, á noite, como flores! Ondas do mar! Serras da Estrella d'agoa, Cheias de brigues como pinhaes... Morenos mareantes, trigueiros pastores!

Onde estaes, onde estaes?

Convento d'agoas do mar, ó verde convento, Cuja Abbadessa secular é a Lua E cujo Padre-capellão é o Vento... Agoa salgada d'esses verdes poços, Que nenhum balde, por maior, escua! Ó mar jazigo de paquetes, de ossos, Que o Sul, ás vezes, arrola á praia: Olhos em pedra, que ainda chispam brilhos!

Corpo de virgem, que ainda veste a saia... Braços de mães, ainda a apertar braços de filhos! Noiva cadaver ainda com véu... Ossadas ainda com os mesmos fatos! Cabeça roxa ainda de chapéu! Pés de defunto que ainda traz sapatos! Boquinha linda que já não canta... Boccas abertas que ainda soltam ais! Noivos em nupcias, ainda, aos beijos, abraçados! Corpo intacto, a boiar (talvez alguma santa...) Ó defuntos do mar! ó roxos arrolados!

Onde estaes, onde estaes?

Ó Boa Nova, ermida á beira-mar, Unica flor, n'essa viv'alma de areaes! Na cal, meu nome ainda lá deve estar, Á chuva, ao vento, aos vagalhões, aos raios! Ó altar da Senhora, coberto de luzes! Ó poentes da Barra, que fazem desmaios... Ó Sant'Anna, ao luar, cheia de cruzes! Ó logar de Roldao! villa de Perafita! Aldeia de Gonsalves! Mesticoza! Engenheiros, medindo a estrada com a fita... Agoa fresquinha d'Amoroza! Rebolos pela areia! Ó praia da Memoria! Onde o Sr. D. Pedro, Rei-soldado, Atracou, diz a Historia, No dia... não estou lembrado;

Ó capellinha do Senhor d'Areia, Onde o Senhor appareceu a uma velhinha... Algas! farrapos do vestido da sereia! Lanchas da Povoa que ides á sardinha, Poveiros, que ides para as vinte braças, Sol-por, entre pinhaes... Capellas onde o sol faz mortes, nas vidraças!

Onde estaes?