Versos Portuguese António Pereira Nobre 3 (Georges! anda ver meu pàiz…)

Portuguese poem

3 (Georges! anda ver meu pàiz…)

by (1867–1900)

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Georges! anda ver meu pàiz de romarias E procissões!

Olha essas moças, olha estas Marias! Caramba! dá-lhes beliscões! Os corpos d'ellas, ve! são ourivezarias, Gula e luxuria dos Maneis! Têm nas orelhas grossas arrecadas, Nas mãos (com luvas) trinta moedas, em anneis, Ao pescoço serpentes de cordões, E sobre os seios entre cruzes, como espadas, Além dos seus, mais trinta coraçoes! Vá! Georges, faze-te Manel! viola ao peito, Toca a bailar! Dá-lhes beijos, aperta-as contra o peito, Que hão de gostar!

Tira o chapéu, silencio!

Passa a procissão.

Estralejam foguetes e morteiros. Lá vem o Pallio e pegam ao cordão Honestos e morenos cavalheiros. Altos, tão altos e enfeitados, os andores, Parecem Torres de David, na amplidão! Que linda e aceiada vem a Senhora das Dores! Olha o mordomo, á frente, o Sr. Conde. Contempla! Que tristes os Nossos Senhores, Olhos leaes fitos no vago... não sei onde!

Os anjinhos! Vêm a suar: Infantes de trez annos, coitadinhos! Mãos inviziveis levam-nos de rastros, Que elles mal sabem andar...

Esta que passa é a Noite cheia de astros! (Assim estava, em certo dia, na Judeia) Aquelle é o Sol! (Que bom o sol de olhos pintados!) E aquella outra é a Lua-Cheia! Seus doces olhos fazem luar... Essa, acolá, leva na mão os Dados, Mas perde tudo se vae jogar. E esta que passa, toda de arminhos, (Ve! d'entre o povo em extazi, olha-a a Mãe)... Leva, sorrindo a Coroa dos Espinhos, Flor de criança que os não tem. E que bonita vae a Esponja de Fel! Mal ella sabe, a innocentinha... Nas suas mãos a Esponja deita mel: Abelhas d'oiro tomam-lhe a dianteira! Lá vem a Lança! A bainha Traz ainda o sangue da Sexta-feira... Jezus! Que maravilha de criança! O Leão morrera ainda outra vez, na cruz, Entre ladrões, a suar, lá no Calvario, Se fosse este anjo espicaçal-o com a lança...

Passa o ultimo, o Sudario! O corpo de Jezus, Nosso Senhor...

Parece o sol-por! E a procissão passa. Maré-cheia de povo! É o Oceano Atlantico! O bom povinho de fato novo, Nas violas de arame soluça, romantico,

Fadinhos chorozos da su'alma beata.

Trazem imagens da Funcção nos seus chapéus.

Poeira opaca. Abafa-se. E, no céu ferro-e-oiro, O sol em gloria brilha olympico, e de prata, Como a velha cabeça aureolada de Deus!

Trombetas clamam. Vae correr-se o toiro. Passam as chocas, boas mães! passam capinhas.

Pregões. Laranjas! Ricas cavaquinhas! Pão de ló de Margaride! Agoinha fresca da Moirama! Vinho verde a escorrer da vide!

Á porta d'um cazal, um tysico na cama, Olha tudo isto com seus olhos de Outro-mundo. E uma netinha com um ramo de loireiro Enxota as moscas, do moribundo...

Dança de roda mail-as moças o coveiro.

Clama um ceguinho: «Não ha maior desgraça n'esta vida, Que ser ceguinho!» Outro, moreno, mostra uma perna partida! Mas fede tanto, coitadinho... Este, sem braços, diz «que os deixou na pedreira...» E esse, acolá, todo o corpinho n'uma chaga, Labareda de cancros em fogueira, Que o sol atiça e que a gangrena apaga, Ó Georges, ve! que excepcional cravina...

Que lindos cravos para por na botoeira!

Tysicos! Doidos! Nus! Velhos a ler a sina! Etnas de carne! Jobs! Flores! Lazaros! Christos! Martyres! Cães! Dhalias de puz! Olhos fechados! Rheumaticos! Anões! Deliriuns-tremens! Kistos! Monstros, phenomenos, afflictos, aleijados, Talvez lá dentro com perfeitos corações: Todos, á uma, mugem roucas ladainhas, Tragicos, uivam «uma esmola p’las alminhas Das suas obrigações!» Pelo nariz corre-lhes puz, gangrena, ranho! E, coitadinhos! fedem tanto: é de arrazar...

Qu'é dos pintores do meu paiz extranho? Onde estão elles que não vêm pintar!

Pariz, 1890-1891.

*Os Figos Pretos*

—Verdes figueiras soluçantes nos caminhos! Vós sois odiadas desde os seculos avós: Em vossos galhos nunca as aves fazem ninhos, Os noivos fogem de se amar ao pé de vós!

—Ó verdes figueiras! ó verdes figueiras Deixae-o fallar! Á vossa sombrinha, nas tardes fagueiras, Que bom que é amar!

—O mundo odeia-vos. Ninguem nos quer, vos ama: Os paes transmittem pelo sangue esse odio aos moços. No sitio onde medraes, ha quazi sempre lama E debruçaes-vos sobre abysmos, sobre poços.

—Quando eu for defunta para os esqueletos, Ponde uma ao meu lado: Tristinha, chorando, darà figos pretos... De luto pezado!

—Os aldeões para evitar vosso perfume Sua respiração suspendem, ao passar... Com vossa lenha não se accende, á noite, o lume, Os carpinteiros não vos querem aplainar.

—Oh cheiro de figos, melhor que o do incenso Que incensa o Senhor! Podesse eu, quem dera! deital-o no lenço Para o meu amor...

—As outras arvores não são vossas amigas... Mãos espalmadas, estendidas, supplicantes, Com essas folhas, sois como velhas mendigas N'uma estrada, pedindo esmola aos caminhantes!

—Mendigas de estrada! mendigas de estrada! E cheias de figos! Os ricos là passam e não vos dao nada, Vos daes aos mendigos...

—Ai de ti! ai de ti! ó figueiral gemente! O goivo é mais feliz, todo amarello, lá. Ninguem te quer: tua madeira é unicamente Utilizada para as forcas, onde as ha...

—Que màs creaturas! que injustas sois todas Que injustas que sois! Serà de figueira meu leito da bodas... E os berços, depois

—Tragicas, nuas, esqueleticas, sem pelle, Por traz de vós, a lua é bem uma caveira!... Ó figos pretos, sois as lagrymas d'aquelle Que, em certo dia, se enforcou n'uma figueira!

—Tambem era negro, de negro cegava O pranto, o rosario, Que, em certa tardinha, desfiava, desfiava, Alguem, no Calvario...

—E, assim, ao ver no outomno uma figueira nua, Se os figos caem de maduros, pelo chão: Cuido que é a ossada do Traidor, á luz da lua, A chorar, a chorar sua alta traição!

—Ó minhas figueiras! ó minhas figueiras Deixae-o fallar! Oh! vinde de hi ver-nos, a arder nas fogueiras Cantar e bailar...

Coimbra, 1889.

*Febre Vermelha*

Rozas de vinho! Abri o calice avinhado! Para que em vosso seio o labio meu se atole: Beber até cair, bebedo, para o lado! Quero beber, beber até o ultimo gole!

Rozas de sangue! Abri o vosso peito, abri-o! Montanhas alagae! deixae-as trasbordar! As ondas como o oceano, ou antes como um rio Levando na corrente Ophelias de luar...

Camelias! Entreabri os labios de Eleonora! Desabrochae, á lua, a ancia dos vossos calis! Dá-me o teu genio, dá! ó tulipa de aurora! E dá-me o teu veneno, ó rubra digitalis...

Papoilas! Descerrae essas boccas vermelhas! Apagae-me esta sede estonteadora e cruel: Ó favos rubros! os meus labios são abelhas, E eu ando a construir meu cortiço de mel...

Rainunculos! Corae minhas faces-de-terra! Que seja sangue o leite e rubins as opalas! Tal se vêm pelo campo, em seguida a uma guerra, Tintos da mesma cor os corações e as balas!...

Chagas de Christo! Abri as petalas chagadas! N'uma raiva de cor, n'uma erupção de luz! Escancarae a bocca, ás vermelhas rizadas, Cancros de Lazaro! Feridas de Jezus...

Flores em braza! Orgaos da cor! Tirava Operas d'oiro, podesse eu, das vossas teclas. Volcões de Maio! ungi minha pelle de lava! Dae-me energia, audacia, ó pequeninos Heclas!

Dae-me do vosso sangue, ó flores! entornae-o Nas veias do meu corpo estragado e sem cor: Que vida negra! Foi escripto, á luz do raio, O triste fado que me deu Nosso Senhor...

Scismo já farto de velar minha alma doente, Não dura um mez siquer, minhas amigas, vede! Mas, mal vos vejo, então, pulo alegre e contente A uivar, como os leões quando os ataca a sede!

Corto o estrellado céu, voo atravez do espaço, Cruzo o infinito e vou rolar aos pés de Deus, Como se accaso fosse, em catapultas de aço, Por um Titan de bronze atirado a esses céus!

Amo o vermelho. Amo-te, ó hostia do sol-posto! Fascina-me o escarlate. Os meus tedios estanca: E apezar d'isso, ó cruel hysteria do Gosto, Certa flor da minh'alma é branca, branca, branca...

Leça, 1886.

*Poentes de França*

—Ó sol! ó sol! ó sol! poente de vinho velho! Enche meu copo de S. Graal (deu-m'o a ballada...) Ó sol de Normandia! Occidente vermelho, Tal o circo andaluz depois d'uma toirada!

—Vos sois extrangeiros, vos sois extrangeiros, Ó poentes de França! não vos amo, não!

—Ó sol, cautella! já a noite se avizinha O Padre-Oceano vae, em breve, commungar: Ó hostia vesperal de vermelha farinha, Que o bom Moleiro móe, no seu moinho do Ar!

Ó sol, às Trindades, atraz dos pinheiros, Á hora em que passam branquinhos moleiros, Levando farinha p'ra cozer o pão!

—Ó forca do sol-por! ó Inferno de Dante! Açougue d'astros! ó sabbat de feiticeiras! Ó sol ensanguentado! ó cabeça fallante, Que o funambulo Poente anda a mostrar nas feiras!

—Que paz pelo mundo, n'essa hora ditoza! Ó poentes de França! não vos amo, não!

—Arco da Velha, a rir rizos de sete cores! Ó lua na ascenção! ó sol! ó sol! ó sol! Cabeça de Iskariote, entre aguias e condores! Ó cabeça de Christo, impressa no lençol!

Que paz pelo mundo, n'essa hora saudoza Quando fecha a lojinha a Sra. Roza, Quando vem das sachas o Sr. Joao...

—Ó sol! ó sol! Titan d'este bloco da Terra! Ó sol em sangue que ainda pula e arde e scintilla: Ó bala de canhão, tu vens d'alguma guerra: Varaste os corações d'um exercito em fila!

—Ó hora em que as agoas rebentam das minas... Ó poentes de França! não vos amo, não!

—Ó poente verde-mar! ó por-de-sol de azeite! Ó longes de trovoada! ó céu dos ventos sues! Vacca do Ar, a mugir crepusculos de leite E roxos e cardeaes e amarellos e azues!

—Ó hora em que passam moças e meninas Que, em tardes de Maio, vão às Ursulinas, Com rozas nos seios e um livro na mão...

—Ó sol! ó sol! Tragico, afflicto, doido, venho A tua saude erguer a minha taça ardente! Meus grandes olhos são dois bebedos, e tenho Dlirium-tremens já, Sir Falstaff do Poente!

—Eu amo os poentes, mas sem agonias, Ó poentes de França! não vos amo, não!

—Adeus, ó sol! chegou a Noite na fragata, A tua porta os marinheiros vão bater: Lá vejo os astros por seus calices de prata, Na Taverna do Occaso, a beber, a beber...

Ó céus phtysicos, cuspindo em bacias! Ó céus como escarros, às Ave-Marias! Ó poentes de França! não vos amo, não!

Pariz, 1891.

*Pobre Tysica*!

Quando ella passa á minha porta, Magra, livida, quazi morta, E vae até á beira-mar, Labios brancos, olhos pizados: Meu coração dobra a finados, Meu coração poe-se a chorar...

Perpassa leve como a folha, E suspirando, ás vezes, olha Para as gaivotas, para o Ar: E, assim, as suas pupillas negras Parecem duas toutinegras, Tentando as azas para voar!

Veste um habito cor de leite, Saiinha liza, sem enfeite, Boina maruja, toda luar: Por isso, mal na praia alveja, As mais suspiram com inveja: «Noiva feliz, que vaes cazar...»

Triste, acompanha-a um Terra-Nova Que, dentro em pouco, á fria cova A irá de vez acompanhar... O chão desnuda com cautella, Que Boy conhece o estado d'ella: Quando ella tosse, poe-se a uivar!

E, assim, sósinha com a aia, Ao sol, se assenta sobre a praia, Entre os bébés, que é o seu logar... E o Oceano, tremulo avôzinho, Cofiando as barbas cor de linho, Vem ter com ella a conversar...

Fallam de sonhos, de anjos, e elle Falla d'amor, falla d'aquelle Que tanto e tanto a faz penar... E o coração parte-se todo, Quando a sorrir, com tão bom modo, O Mar lhe diz: «Ha-de sarar...»

Sarar? Mizerrima esperança! Padres! ungi essa criança, Podeis sua alma encommendar: Corpinho d'anjo, casto e inerme, Vae ser amada pelo Verme: O bichos vão-na desfructar...

Sarar? Da cor dos alvos linhos, Parecem fuzos seus dedinhos, Seu corpo é roca de fiar... E, ao ouvir-lhe a tosse secca e fina, Eu julgo ouvir n'uma officina Taboas do seu caixão pregar!

Sarar? Magrita como o junco, O seu nariz (que é grego e adunco) Começa aos poucos de afilar, Seus olhos lançam igneas chammas... Ó pobre mãe, que tanto a amas, Cautella! O outomno está a chegar...

Leça, 1889.

*A Poezia do Outomno*

Noitinha. O sol, qual brigue em chammas, morre Nos longes d'agoa... Ó tardes de novena! Tardes de sonho em que a poezia escorre E os bardos, a sonhar, molham a penna!

Ao longe, os rios de agoas prateadas Por entre os verdes cannaviaes, esguios, São como estradas liquidas, e as estradas Ao luar, parecem verdadeiros rios!

Os choupos nus, tremendo, arripiadinhos, O chale pedem a quem vae passando... E nos seus leitos nupciaes, os ninhos, As lavandiscas noivam piando, piando!

O orvalho cae do céu, como um unguento. Abrem as boccas, aparando-o, os goivos... E a larangeira, aos repellões do vento, Deixa cair por terra a flor dos noivos.

E o orvalho cae... E, á falta d'agoa, rega O val sem fruto, a terra arida e nua! E o Padre-Oceano, lá de longe, prega O seu Sermão de Lagrymas, á Lua!

Tardes de outomno! ó tardes de novena! Outubro! Mez de Maio, na lareira! Tardes... Lá vem a Lua, gratiae plena, Do convento dos céus, a eterna freira!

Porto, 1886.