Portuguese poem
2 (Além, na tapada das Quatorze…)
by António Pereira Nobre (1867–1900)
Além, na tapada das Quatorze Cruzes, Já não é a velhinha que vae a passar: Um grande cortejo cheiinho de luzes, Anninhas da Eira que vae a enterrar.
Falla d'um pastor:
«Anninhas da Eira! Anninhas da Eira! Cantae, raparigas, cantae e chorae! Morreu, coitadinha! sorrindo, trigueira, Como um passarinho, sem soltar um ai.
Quando era pequeno, levava-me á escola, E quando, mais tarde, cresci e medrei, Oh danças nas eiras, ao som da viola! Nas danças de roda, que beijos lhe dei!
Os annos vieram, os annos passaram, Meu fado arrastou-me, da aldeia sai: Nunca mais meus olhos seus olhos tocaram, Perdi-a de todo, nunca mais a vi...
E além, na tapada das Quatorze Cruzes, N'uma noite d'estas com vento a ventar, Ó meu Deus! é ella que vae entre luzes! Ó meu Deus! é a Anninhas que vae a enterrar!
Olá! bons senhores, vestidos de preto, Deixae a defunta, que a levarei eu! O suor alagava-vos, eu levo o carreto... O caixão de Anninhas é tambem o meu!
Tenho os relampagos, deixae-me sem velas A rezar por ella, sob o temporal! Cai-me no peito, cravae-m'as, procellas! Cruzes da tapada, em forma de punhal!»
Mas os bons senhores, de preto vestidos, Cigarros accezos, e velas na mão, Lá passam ao vento, com sete sentidos, Com medo que, ás vezes, não seja um ladrão...
«Mãos das ventanias! mãos das ventanias! Tirae-lhes a Anninhas e levae-a a Deus! Com suas mãosinhas, agora tão frias, Irá na viagem a dizer-me adeus...
Ó vento que passas! corcel de rajada! Assenta-nos ambos no mesmo selim: Quero ir mais ella na longa jornada... Quero ir com Anninhas pelo céu sem fim!
Ó Leste, que trazes as rolas, ás costas, Quaes rolas, leva-nos aos pés do Senhor! Quero ir como ella, assim de mãos postas... Quero ir com Anninhas para onde ella for!
Ó Norte dos Marços! ó Sul das procellas, Levae-nos quaes brigues, como azas, levae! Levae-nos como aguias, levae-nos quaes velas... Quero ir com Anninhas para onde ella vae!»