Versos Portuguese António Pereira Nobre Thereza

Portuguese poem

Thereza

by (1867–1900)

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--«E depois, menino, sabemos já o resto... Para que mortifica assim o coração?»

--Ai minha Thereza! tu tens talvez razão: Esse amor primeiro foi-me tão funesto!

O os meus dias idos em contemplação! O os meus loucos sonhos que d'ahi eu trouxe! Fallava eu ás flôres, como se ella fosse: «Maria» eu lhes chamava, cego de paixão.

Hei-de gravar-te em bronze e tornar-te immortal! Eu hei-de lançar o teu nome aos quatro ventos! Eu, o humilde Snr. Manoel dos Soffrimentos, Eu, por graça de Deus, poeta de Portugal.

--Quem é, Thereza, que bate á porta Quem vem a esta hora quebrar meu somno? --Ninguem é, meu Senhor, a noite é morta, São folhas a cahir, que é já outomno...

«Quando eu era moça e menina, A-i-ó-ái! Um velho, um dia, leu-me a sina. Ha que tempos que isso lá vae! A-i-ó-ái!»

(O vento continua uivando).

--Quem é, Thereza, que oiço clamores, Vae vêr á porta, vae n'um instante! --Socegue, durma, são os lavradores, Que passam para a feira d'Amarante...

E vá de roda! e vá de roda! Olé! E vira e vira e já virou! E na tarde da minha boda Houve baile, houve baile, olé! Tomou parte a aldeia toda, E vá de roda! e vá de roda! Olé!

(O vento uiva sempre).

--Quem é, Thereza? quem é, Thereza? Quem é, Thereza, que bate á porta? --Olhe a Fortuna não é com certeza, Por isso... durma, durma, que lhe importa?

(O vento uiva, uiva).

--Não ouves, Thereza, tres pancadinhas? Vae vêr: é a D. Felicidade. --Mas as senhoras não sahem sósinhas N'uma aldeia, nem mesmo na cidade...

Durma menino, a dormir Não soffre tanta paixão, Os sonhos que lhe hão de vir Afasto-os eu, com a mão.

Durma menino, a dormir Não ouve o seu coração, E p'ra o ajudar a dormir Eu canto-lhe uma canção:

Era uma vez, n'um paço sobre o Tejo, Um moço Rey... de lindos olhos verdes; (Senhor! se a luz dos vossos, perderdes, Tereis os d'elle que sempre abertos vejo.)

Andava o moço Rey com seu gibão De prata branca, reluzente d'oiros. Tinha em anneis os seus cabellos loiros, No céu era anjo e cá... Sebastião.

(O vento geme, geme sempre).

--Quem é, Thereza? quem é, Thereza? Não ouves passos, que vão pela serra Não ouves gritos, quem é, Thereza? --É D. Sebastião que vae para a guerra. ....................................... .......................................

Por uma tarde de chuvinha miuda e vento, D'estas tardes, meu Deus! que fojem os paquetes, E a chuva tomba sem parar um só momento, A chuva que parece de pontas de alfinetes,

Por uma tarde triste assim, é que Anrique Partiu. De novo abandonou o seu solar. Da sua aldeia os pobres pedem-lhe que fique, E Thereza bem faz tambem pelo guardar.

Por uma tarde de chuvinha miuda e vento, Anrique foi bater á porta d'um convento. Bateu á porta, um Frade veio-lhe fallar. «Que desejaes, Irmão»? e respondeu: «Entrar».

Frades! meus Frades! ai abri-me a porta! Abri-me a porta, que eu pretendo entrar. Eu trago a alma toda ferida, morta, Só vós, Fradinhos, m'a podeis curar!

Ha quantos annos vós estaes fechados N'estas muralhas de granito e cal! Ah se soubesseis, Frades corcovados! O que vae lá por fóra, em Portugal! ...................................

Anrique, até que emfim cedes ás magoas! Até que emfim eu vejo-te chorar! Chorae, chorae, ó longos fios de agoas! Ó olhos grandes como os globos do Ar!

Ah chora Anrique, chora nos meus braços O moço Poeta que te está a cantar! Choremos entre beijos, entre abraços, Tambem eu choro por te vêr chorar!

Ah chora Anrique, chora, não te escondas! Tens pudor que te venham encontrar? Choram os cannaviaes, choram as ondas, Só os cynicos não podem chorar!...

Ah chora, Anrique, chora no meu peito, Assim baixinho, lento, devagar! Custa-te muito? não estás affeito! Chora, meu filho, que é tão bom chorar!

Anrique ouve-me bem, minha criança! Nem tudo se perdeu com o teu Lar. Ainda tens na vida uma esperança... Meu pobre Anrique, és tão lindo a chorar!

Teu coração está morto, bem morto. Nada no mundo o poderá salvar. Ah! moço que tu és, que desconforto! Tens razão, oh se tens! para chorar!

Tens razão, Anrique; mas no emtanto, Quem soffreu como tu sem descançar, Anrique, ou dá n'um cynico, ou n'um santo: Não és cynico, não, sabes chorar.

Ouve-me, Anrique: n'esses céus existe Um homem, Pae da Terra e mais do Mar, Que fez o Mundo (por signal tão triste) E os olhos, não p'ra o vêr, mas p'ra chorar.

Vá! offerece-lhe a tua mocidade. Vá! vae soffrer por elle e trabalhar. Ah bem sei que custa tanto, n'essa idade... Mas que has-de tu fazer? Chorar? Chorar?

Não tens na vida uma alma amiga (Tu bem no sabes) para te amparar. Só eu, embora curvo de fadiga, Tenho paciencia p'ra te ouvir chorar!

Todos os mais, malvados e egoistas, (Que tudo a Deus, um dia, hão de pagar) Não te poriam nem sequer a vista, Fugiriam, ao verem-te chorar!

A adversidade é uma maravilha Que certas almas sabem respeitar, Mas aos olhos dos mais a dôr humilha... Ah quanto é grande vêr um rei chorar!

Ah pensa, pensa bem na tua sorte, Cautela, Anrique, nada de brincar. Ha outros males piores do que a morte, Cautela, Anrique, vamos trabalhar.

Vae trabalhar por Deus.--«Mas como e aonde? Não vos disse que morto é Portugal? P'r'o trabalho quem antes era conde!»-- --Ai meu Anrique, não te fica mal!

Não me dizes que lá por Portugal Andam as almas todas quebrantadas? Vae, meu filho, vae para Portugal Vae levantar as flores, já tão quebradas.

Anda, meu filho: vae dizer baixinho A esse povo do Mar, que é teu irmão, Que não fraqueje nunca no caminho, Que espere em pé o seu D. Sebastião.

Anrique, vae gritar por essa rua --Virá um dia o «Sempre-Desejado»! Deu a vida por vós, Tu, dá-lhe a tua, Esquece n'elle todo o teu passado.

Procura bem Anrique, em Portugal; Procura-o na flôr das primaveras, Procura-o na sombra do olival; Procura á luz de todas as chymeras... ..................................... .....................................

INDICE Pag. Prefacio I.--Sonetos: 1 a 25 3 a 27 II.--Outras Poesias: Eu chegára de França Ladainha da Suissa Confissão d'uma rapariga feia Affirmações religiosas Ares da Andaluzia Contas de rezar A Ceifeira Sensações de Baltimore Ao Mar Dispersos III.--O Desejado

Acabou de se imprimir este livro aos dezoito de março de 1902 segundo anniversario da morte do Poeta