Versos Portuguese Augusto dos Anjos Mater

Portuguese poem

Mater

by (1884–1914)

Listen in the reader

Como a chrysalida emergindo do ovo Para que o campo flórido a concentre, Assim, oh! Mãe, sujo de sangue, um novo Ser, entre dôres, te emergiu do ventre!

E puzeste-lhe, haurindo amplo deleite, No labio roseo a grande têta farta — Fecunda fonte desse mesmo leite Que amamentou os éphebos de Sparta. —

Com que avidez elle essa fonte suga! Ninguem mais com a Belleza está de accordo, Do que essa pequenina sanguesuga, Bebendo a vida no teu seio gordo!

Pois, quanto a mim, sem pretenções, comparo, Essas humanas cousas pequeninas A um biscuit de quilate muito raro Exposto ahi, á amostra, nas vitrinas.

Mas o ramo fragilimo e venusto Que hoje nas debeis gemmulas se esboça, Ha de crescer, ha de tornar-se arbusto E álamo altivo de ramagem grossa.

Clara, a atmosphera se encherá de aromas, O Sol virá das epochas sadias. E o antigo leão, que te esgotou as pomas, Ha de beijar-te as mãos todos os dias!

Quando chegar depois tua velhice Batida pelos barbaros invernos, Relembrarás chorando o que eu te disse, Á sombra dos sycomoros eternos!