Versos Portuguese Augusto dos Anjos Sonetos

Portuguese poem

Sonetos

by (1884–1914)

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Para onde fores, Pae, para onde fôres, Irei tambem, trilhando as mesmas ruas. Tu, para amenisar as dôres tuas, Eu, para amenisar as minhas dores!

Que cousa triste! O campo tão sem flores, E eu tão sem crença e as arvores tão nuas E tu, gemendo, e o horror de nossas duas Maguas crescendo e se fazendo horrores!

Maguaram-te, meu Pae?! Que mão sombria, Indifferente aos mil tormentos teus De assim maguar-te sem pezar havia?!

— Seria a mão de Deus?! Mas Deus emfim É bom, é justo, e sendo justo, Deus, Deus não havia de maguar-te assim!

Madrugada de Treze de Janeiro. Rezo, sonhando, o officio da agonia. Meu Pae nessa hora junto a mim morria Sem um gemido, assim como um cordeiro!

E eu nem lhe ouvi o alento derradeiro! Quando acordei, cuidei que elle dormia, E disse á minha Mãe que me dizia: «Acórda-o»! deixa-o, Mãe, dormir primeiro!

E sahi para ver a Natureza! Em tudo o mesmo abysmo de belleza, Nem uma nevoa no estrellado veu.

Mas pareceu-me, entre as estrellas floreas, Como Elias, num carro azul de glorias, Ver a alma de meu Pae subindo ao Ceu!

Pôdre meu Pae! A Morte o olhar lhe vidra. Em seus lábios que os meus lábios osculam Micro-organismos fúnebres pullulam Numa fermentação gorda de cidra.

Duras leis as que os homens e a hórrida hydra A uma só lei biologica vinculam, E a marcha das moléculas regulam. Com a invariabilidade da clepsydra!

Podre meu Pae! E a mão que enchi de beijos Roida toda de bichos, como os queijos Sobre a meza de orgiacos festins!..

Amo meu Pae na atómica desordem Entre as boccas necróphagas que o mordem E a terra infecta que lhe cobre os rins!