Portuguese poem
Tristezas de um Quarto-Minguante
by Augusto dos Anjos (1884–1914)
Quarto-Minguante! E, embora a lua o aclare, Este Engenho Pau d’Arco é muito triste. Nos engenhos da varzea não existe Talvez um outro que se lhe equipare!
Do observatorio em que eu estou situado A lua magra, quando a noite cresce, Vista, atravéz do vidro azul, parece Um parallelipipedo quebrado!
O somno esmaga o encéphalo do povo. Tenho 3OO kilos no epigastro. Dóe-me a cabeça. Agora a cara do astro Lembra a metade de uma casca de ovo.
Diabo! não ser mais tempo de milagre! Para que esta oppressão desappareça Vou amarrar um panno na cabeça, Molhar a minha fronte com vinagre.
Augmentam-se-me então os grandes medos. O hemispherio lunar se ergue e se abaixa Num desenvolvimento de borracha, Variando á acção mechanica dos dedos;
Vai-me crescendo a aberração do sonho. Morde-me os nervos o desejo doudo De dissolver-me, de enterrar-me todo Naquelle semi-circulo medonho!
Mas tudo isto é illusão de minha parte! Quem sabe se não é porque não saio Desde que, 6ª-feira, 3 de Maio, Eu escrevi os meus Gemidos de Arte?!
A lampada a estirar linguas vermelhas Lambe o ar. No bruto horror que me arrebata, Como um degenerado psychopatha Eis-me a contar o numero das telhas!
— Uma, duas, tres, quatro. E aos tombos, tonta Sinto a cabeça e a conta perco; e, em summa, A conta recomeço, em ancias: — Uma. Mas novamente eis-me a perder a conta!
Succede a uma tontura outra tontura. — Estarei morto?! E a esta pergunta extranha Responde a Vida — aquella grande aranha Que anda tecendo a minha desventura! —
A luz do quarto diminuindo o brilho Segue todas as phases de um eclypse. Começo a ver coisas de Apocalypse No triangulo escaleno do ladrilho!
Deito-me emfim. Ponho o chapéu num gancho. Cinco lençóes balançam numa corda, Mas aquillo mortalhas me recorda, E o amontoamento dos lençòes desmancho.
Vêm-me á imaginação sonhos dementes. Acho-me, por exemplo, numa festa. Tomba uma torre sobre a minha testa, Caem-me de uma só vez todos os dentes!
Então dois ossos roidos me assombraram. — «Por ventura haverá quem queira roer-nos?! Os vermes já não querem mais comer-nos E os formigueiros já nos desprezaram».
Figuras espectraes de boccas tronchas Tornam-me o pesadelo duradouro. Chóro e quero beber a agua do chôro Com as mãos dispostas á feição de conchas.
Tal uma planta aquatica submersa, Ante-gozando as ultimas delicias Mergulho as mãos — vis raizes adventicias — No algodão quente de um tapete persa.
Por muito tempo rólo no tapete. Subito me ergo. A lua é morta. Um frio Cahe sobre o meu estomago vasio Como se fosse um cópo de sorvete!
A alta frialdade me insensibilisa; O suor me ensopa. Meu tormento é infindo... Minha familia ainda està dormindo E eu não posso pedir outra camisa!
Abro a janella. Elevam-se fumaças Do engenho enorme. A luz fulge abundante E em vez do sepulchral Quarto-Minguante Vi que era o sol batendo nas vidraças.
Pelos respiratorios tenues tubos Dos póros vegetaes, no acto da entréga Do matto verde, a terra resfolèga Estrumada, feliz, cheia de adubos.
Concavo, o ceu, radiante e estriado, observa A universal creação. Broncos e feios, Varios reptis cortam os campos, cheios Dos tenros tinhorões e da humida herva.
Babujada por baixos beiços brutos, No humus feraz, hieratica, se ostenta A monarchia da arvore opulenta Que dá aos homens o obolo dos fructos.
De mim diverso, rigido e de rastos Com a solidez do tegumento sujo Sulca, em diametro, o sólo um caramujo Naturalmente pelos mata-pastos.
Entretanto, passei o dia inquieto, A ouvir, nestes bucólicos retiros, Toda a salva fatal de 21 tiros Que festejou os funeraes de Hamleto!
Ah! Minha ruina é peor do que a de Thebas! Quizera ser, numa ultima cobiça, A fatia esponjosa de carniça Que os corvos comem sobre as jurubebas!
Porque, longe do pão com que me nutres Nesta hora, oh! Vida, em que a soffrer me exhortas Eu estaria como as bestas mortas Pendurado no bico dos abutres!