Versos Portuguese Auta de Souza Goivos

Portuguese poem

Goivos

by (1876–1901)

Listen in the reader

Inda não era sol posto... Quanto perfume trazia A aragem fresca e macia D’aquella tarde de Agosto!

Devagarinho, no solo, Sentei-me a cantarolar; De manso, puz-me a embalar O pobresinho no collo.

Que tempo estive, não sei! Do mundo inteiro distante, O jardim, naquelle instante, Foi a terra que eu amei.

Depois... a noite descia... E eu senti, dentro do seio, Não sei que vago receio Da tarde que, além, morria!

N’uma gaiola pequena Fui deitar o passarinho, Fazendo lá dentro um ninho Dê algodão frouxo e de penna.

Mas dias depois, ó dor! Que grande desdita a minha! No fundo da gaiolinha Achei morto o pobre amor.

Tinha o biquinho entreaberto Qual se morresse a cantar, E um par de azas aberto Como se fosse a voar.

Chorei sem hypocrisia, Como se chora em creança... Era a primeira esperança Que do seio me fugia.

II

Que de annos ja vào! Entanto Só recordo, entristecida, A hora em que vi sem vida O meu pequenino encanto.

E, daquelle triste dia Do meu viver de creança, Conservo como lembrança A gaiolinha vasia.

Lembrança ingenua e sagrada! Caricia que se balouça, Entre os meus sonhos de moça, Como reliquia adorada!

III

Um dia destes, enferma, Eu recordava, a chorar, Um sonho que vi brilhar Em minha vida tão erma.

E cheia de desconforto Fui evocando o perfil, Sereno, meigo e gentil, De meu irmãosinho morto,

Quando ouvi, muito baixinho, Um grito vago e dorido, Como o saudoso gemido De um’ave, pedindo o ninho...

Quem ousaria no mundo Penetrar na soledade, Onde gemia a saudade Do meu coração no fundo?

Julguei sonhar... Mas, desperta Estava, ainda, e sosinha! Aquelle gemido vinha Lá da gaiola deserta.

Era o soluço choroso Da ave que se partira, E de meu seio fugira Em busca do Azul formoso!

⁂