Portuguese poem
Palavras tristes
by Auta de Souza (1876–1901)
Quando eu deixar a terra, anjo inocente, Ó meu formoso lírio perfumado! Reza por mim, de joelhos, docemente, Postas as mãos no seio imaculado, Quando eu deixar a terra, anjo inocente!
És a estrela gentil das minhas noites, Noites que mudas no mais claro dia. Não tenho medo aos gélidos açoites Da escuridão se a tua luz me guia, Ó estrela gentil das minhas noites!
Quando eu deixar a terra, dá-me flores Boiando à tona de um sorriso teu; Que os risos das crianças são andores Onde os anjos nos levam para o céu... Quando eu deixar a terra, quero flores!
Flores e risos me tecendo o manto, Manto celeste feito de esperanças... Quando eu d’aqui me for, não quero pranto, Só quero riso, preces de criança: Flores e risos me tecendo um manto!
Anjo moreno de alma cor de lírio, Mais branca do que a estrela da Alvorada... Meu coração na hora do martírio Pede o consolo de uma prece amada, Anjo moreno de asas cor do lírio!
Quando eu deixar a terra, anjo inocente, Ó meu formoso lírio perfumado! Reza por mim, de joelhos, docemente, Postas as mãos no seio imaculado, Quando eu deixar a terra, anjo inocente!
Serra da Raiz - Fevereiro de 1898.