Versos Portuguese Casimiro de Abreu Na rede

Portuguese poem

Na rede

by (1839–1860)

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Nas horas ardentes do pino do dia Aos bosques corri; E qual linda imagem dos castos amores, Dormindo e sonhando cercada de flores Nos bosques a vi!

Dormia deitada na rede de penas - O céu por dossel, De leve embalada no quieto balanço Qual nauta cismando num lago bem manso Num leve batel!

Dormia e sonhava - no rosto serena Qual um serafim; Os cílios pendidos nos olhos tão belos, E a brisa brincando nos soltos cabelos De fino cetim!

Dormia e sonhava - formosa embebida No doce sonhar, E doce e sereno num mágico anseio Debaixo das roupa batia-lhe o seio No seu palpitar!

Dormia e sonhava - a boca entreaberta O lábio a sorrir; No peito cruzados os braços dormentes, Compridos e lisos quais brancas serpentes No colo a dormir!

Dormia e sonhava - no sonho de amores. Chamava por mim, E a voz suspirosa nos lábios morria Tão terna e tão meiga qual vaga harmonia De algum bandolim!

Dormia e sonhava - de manso cheguei-me Sem leve rumor; Pendi-me tremendo e qual fraco vagido, Qual sopro da brisa, baixinho ao ouvido Falei-lhe de amor!

Ao hálito ardente o peito palpita... Mas sem despertar; E como nas ânsias dum sonho que é lindo, A virgem na rede corando e sorrindo... Beijou-me - a sonhar!