Portuguese poem
Palavras a alguém
by Casimiro de Abreu (1839–1860)
Tu folgas travessa e louca Sem ouvires meu lamento, Sonhas jardins d'esmeralda Nesse virgem pensamento, Mas olha que essa grinalda Bem pode murchá-la o vento!
Ai que louca! abriste o livro Da minh'alma, livro santo, Escrito em noites d'angústia, Regado com muito pranto, E... quase rasgaste as folhas Sem entenderes o canto!
Agora corres nos charcos Em vez das alvas areias! Deleita-te a voz fingida Dessas formosas sereias. Mas eu te falo e te aviso: - "Olha que tu te enlameias!" -
Tu és a pomba inocente, Eu sou teu anjo-da-guarda, Devo dizer-te baixinho: - "Olha que a morte não tarda! "Mariposa dos amores "Deixa a luz, embora arda.
"A chama seduz e brilha - "Qual diamante entre as gazas - "E tu no fogo maldito "Tão descuidosa te abrasas! "Mariposa, mariposa, "Tu vais queimar tuas asas!"
Conchinha das lisas praias Nasceste em alvas areias, Não corras tu para os charcos Arrebatada nas cheias!... - Os teus vestidos são brancos... Olha que tu te enlameias!...