Portuguese poem
Pepita
by Casimiro de Abreu (1839–1860)
Minh'alma é mundo virge' - ilha perdida - Em lagos de cristais; Vem, Pepita, - Colombo dos amores, - Vem descobri-lo, no país das flores Sultana reinarás!
Eu serei teu vassalo e teu cativo Nas terras onde és rei A sombra dos bambus vem tu ser minha Teu reinado de amor, doce rainha, Na lira cantarei.
Minh'alma é como o pombo inda sem penas Sozinho a pipilar; - Vem tu, Pepita, visitá-lo ao ninho; As asas a bater, o passarinho Contigo irá voar.
Minh'alma é como a rocha toda estéril Nos plainos do Sarah; Vem tu - fada de amor - dar-lhe co'a vara... - Qual do penedo que Moisés tocara O jorro saltará.
Minh'alma é um livro lindo, encadernado, Co'as folhas em cetim; - Vem tu, Pepita, soletrá-lo um dia... Tem poemas de amor, tem melodia Em cânticos sem fim!
Minh'alma é o batel prendido à margem Sem leme, em ócio vil - Vem soltá-lo, Pepita, e correremos - Soltas as velas - desprezando remos, Que o mar é todo anil.
Minh'alma é um jardim oculto em sombras Co'as flores em botão; - Vem ser da primavera o sopro louco, Vem tu, Pepita, bafejar-me um pouco Que as rosas abrirão.
O mundo em que eu habito tem mais sonhos, A vida mais prazer; - Vem, Pepita, das tardes no remanso, Da rede dos amores no balanço Comigo adormecer.
Oh! vem! eu sou a flor aberta à noite Pendida no arrebol! Dá-me um carinho dessa voz lasciva, E a flor pendida s'erguerá mais viva Aos raios desse sol!
Bem vês, sou como a planta que definha Torrada do calor. - Dá-me o riso feliz em vez da mágoa... O lírio morto quer a gota d'água, - Eu quero o teu amor!