Portuguese poem
Se eu tenho de morrer na flor dos anos
by Casimiro de Abreu (1839–1860)
Se eu tenho de morrer na flor dos anos, Meu Deus! não seja já; Eu quero ouvir na laranjeira, à tarde, Cantar o sabiá!
Meu Deus, eu sinto e tu bem vês que eu morro Respirando este ar; Faz que eu viva, Senhor! dá-me de novo Os gozos do meu lar!
O país estrangeiro mais belezas Do que a pátria, não tem; E este mundo não vale um só dos beijos Tão doces duma mãe!
Dá-me os sítios gentis onde eu brincava Lá na quadra infantil; Dá que eu veja uma vez o céu da pátria, O céu do meu Brasil!
Se eu tenho de morrer na flor dos anos, Meu Deus! não seja já! Eu quero ouvir na laranjeira, à tarde, Cantar o sabiá!
Quero ver esse céu da minha terra Tão lindo e tão azul! E a nuvem cor de rosa que passava Correndo lá do sul!
Quero dormir à sombra dos coqueiros, As folhas por dossel; E ver se apanho a borboleta branca, Que voa no vergel!
Quero sentar-me à beira do riacho Das tardes ao cair, E sozinho cismando no crepúsculo Os sonhos do porvir!
Se eu tenho de morrer na flor dos anos, Meu Deus! não seja já; Eu quero ouvir na laranjeira, à tarde, A voz do sabiá!
Quero morrer cercado dos perfumes Dum clima tropical, E sentir, expirando, as harmonias Do meu berço natal!
Minha campa será entre as mangueiras Banhada do luar, E eu contente dormirei tranqüilo À sombra do meu lar!
As cachoeiras chorarão sentidas Porque cedo morri, E eu sonho no sepulcro os meus amores Na terra onde nasci!
Se eu tenho de morrer na flor dos anos, Meu Deus! não seja já Eu quero ouvir na laranjeira, à tarde, Cantar o sabiá!