Versos Portuguese Castro Alves Hino ao Sono

Portuguese poem

Hino ao Sono

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Ó Sono! Ó noivo pálido Das noites perfumosas, Que um chão de nebulosas Trilhas pela amplidão! Em vez de verdes pâmpanos, Na branca fronte enrolas As lânguidas papoulas, Que agita a viração.

Nas horas solitárias, Em que vagueia a lua, E lava a planta nua Na onda azul do mar, Com um dedo sobre os lábios No vôo silencioso, Vejo-te cauteloso No espaço viajar!

Deus do infeliz, do mísero! Consolação do aflito! Descanso do precito, Que sonha a vida em ti! Quando a cidade tétrica De angústia e dor não geme... É tua mão que espreme A dormideira ali.

Em tua branca túnica Envolves meio mundo. E teu seio fecundo De sonhos e visões, Dos templos aos prostíbulos Desde o tugúrio ao Paço, Tu lanças lá do espaço Punhados de ilusões!...

Da vide o sumo rúbido, Do hatchiz a essência, O ópio, que a indolência Derrama em nosso ser, Não valem, gênio mágico, Teu seio, onde repousa A placidez da lousa E o gozo de viver...

Ó sono! Unge-me as pálpebras.. Entorna o esquecimento Na luz do pensamento, Que abrasa o crânio meu. Como o pastor da Arcádia, Que uma ave errante aninha... Minh'alma é uma andorinha... Abre-lhe o seio teu.

Tu, que fechaste as pétalas Do lírio, que pendia, Chorando a luz do dia E os raios do arrebol, Também fecha-me as pálpebras... Sem Ela o que é a vida? Eu sou a flor pendida Que espera a luz do sol.

O leite das eufórbias P'ra mim não é veneno... Ouve-me, ó Deus sereno! Ó Deus consolador! Com teu divino bálsamo Cala-me a ansiedade! Mata-me esta saudade, Apaga-me esta dor.

Mas quando, ao brilho rútilo Do dia deslumbrante, Vires a minha amante Que volve para mim, Então ergue-me súbito... É minha aurora linda... Meu anjo... mais ainda... É minha amante enfim!

Ó sono! Ó Deus noctívago! Doce influência amiga! Gênio que a Grécia antiga Chamava de Morfeu, Ouve!... E se minhas súplicas Em breve realizares... Voto nos teus altares Minha lira de Orfeu!